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Não deixe de ler o Conto: "O Turra Mussolé", publicado no dia 7 de Setembro de 2008, o qual, ao cabo de 34 anos da chamada "Revolução dos Cravos" sofreu CENSURA por parte do Ministério da Defesa Nacional, levando-me a deixar de escrever no Jornal da APOIAR - Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vítimas de Stresse de Guerra.

"MENINA DOS OLHOS TRISTES" CANTADO POR ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA

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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

EM JEITO DE PREFÁCIO E OS PRIMEIROS COMENTÁRIOS

Esta publicação, seguida de vários Contos, é dedicada a uma mulher extraordinária que me quer a escrever: cada vez mais e melhor.
Muito obrigado pela força, Maria Isabel Lassuta Monteverde.
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António Pais
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Escreva tudo o que sabe sobre a Guerra Colonial.
Fiquei deslumbrada com as descrições que faz sobre os episódios relatados. O António escreve maravilhosamente em prosa, de forma simples mas cuidada e acessível a todos os níveis culturais. Faz uma descrição exacta, ao pormenor, transmitindo ao leitor uma noção realista das ocorrências, mesmo que nada tenha a ver com a Guerra Colonial. E fá-lo duma forma poética, ao descrever acontecimentos trágicos, porventura chocantes.
Por ser filha de um ex-combatente, Oficial Superior do Exército, e ter herdado do meu pai um espírito militarista; por guardar religiosamente os aerogramas que ele me escrevia em tempos de comissão de serviço; por haver vivido uma infância com o pai sempre ausente e por nunca ter compreendido a razão daquela tão arrastada guerra, só sei que me fazia muita impressão pensar que o meu pai andava no meio da mata e no meio da guerrilha, em combate.
Ao ler o que escreveu sobre algumas das suas experiências relacionadas com a Guerra Colonial pareceu-me encontrar, finalmente, uma luz ao fundo do túnel, ou seja, entender o sem-sentido daquela guerra. Por tudo o que atrás relatei quero incentivá-lo a escrever mais. Continue, assim, a escrever todos os episódios que a sua memória permitiu guardar, da forma maravilhosa como fez com aqueles que, vorazmente, acabei de ler.
É importante que os jovens tomem conhecimento e compreendam minimamente o que foi a Guerra Colonial.
Orgulho-me de ser filha de um ex-combatente, com louvores por acção em combate. Um desses louvores proporcionou-me uma Bolsa de Estudo em qualquer Universidade do País.
Ao meu pai, enquanto Oficial do Exército, não lhe competiam determinadas tarefas, contudo era ele quem variadas vezes ia buscar os pedaços dos seus subordinados que ficavam despedaçados pelas minas e granadas, carregando-os às costas, pois os seus camaradas não tinham coragem. Depois, a tarefa de tentar identificar os pedaços desses corpos, para os compôr e serem, assim, enviados para os seus familiares na Metrópole. Somente os mais idosos lembram com nostalgia a voz do saudoso Adriano Correia de Oliveira quando cantava : “Desta vez o soldadinho / Vem numa caixa de pinho...”
Senti tudo isto retratado nos seus escritos sobre a Guerra Colonial. E este é o meu melhor elogio.

Maria João Machado Aires dos Santos
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Comecei a publicar os meus Contos da Guerra Colonial e, não passando de dois ou três, suspendi essas publicações.
São contraditórias as opiniões dos comentadores. Uns diziam-me que deveria continuar a publicar; outros, opinavam que devia esquecer, eliminá-los da minha memória. Mas como, se estive lá? Como, se contraí doenças psicossomáticas? Como, se a minha saudosa mãe me contava que, ela e o meu pai, com dois filhos na guerra, à hora da refeição, ficavam a olhar para os pratos e sentiam um nó na garganta enquanto as lágrimas, teimosas e salgadas lhes escorriam, misturando-se com os alimentos... E os camaradas mortos e feridos em combate ou acidentalmente?
Uma comentadora chamou-me a atenção - com alguma razão - para o facto de a nossa História do Estado Novo e da Guerra Colonial que a eles serviu - só poder ser contada daqui a uns cinquenta anos. Porquê? Porque passámos por tanta privação e provação em consequência daqueles - alguns nossos camaradas - que tiraram partido da situação. Roubaram-nos descaradamente. E ainda estão vivos os outros que cometeram ou participaram em massacres e, como é sabido, os crimes de guerra são imprescritíveis?
Foi muito, muito complexa, a minha luta interior para tomar esta decisão. E, se os incentivos continuarem a surgir gostaria imenso de partir para o "romance de guerra", de forma mais elaborada, contra tudo e contra todos.
Para uns e para outros (respeito todas as opiniões) o meu agradecimento. Porque não me satisfaz apenas o facto de relatar contos duma forma aligeirada, mas que reconheçam que o sei fazer.
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COMENTÁRIOS:
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Antonio, meu caro, a riqueza da sua criação é tão grande, que este blog, por exemplo, eu nem conhecia.Vou começar a freqüentá-lo, bem como aos outros, pois há muito o que se aprender por aqui.Abraços sinceros do seu admirador.
Não sou jornalista nem escritor. Se quer escrevo bem. Sou aposentado. Meu imposto de renda é retido na fonte pelo INSS. Já nosso querido apedeuta tem sua receita de INSS como anistiado político acima do teto do INSS livre de IR.Minha forma de lutar contra os desmandados implantados por este governo corrupto no Brasil é através de um blog .Gostaria de contar com a presença e dos comentários das pessoas de bem que não se conformam com a desonestidade, a falta de ética e a corrupção em nosso governo.Um grande abraço
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Bom dia.Por favor, não suspenda o blogue. Necessitamos que sejam contadas estas e outras histórias, reais ou parcialmente ficcionadas. Não sei se a ficção será assim tão grande... que se passaram verdadeiras atrocidades nessa altura é bem verdade... o pior é que hoje em dia continuam a passar-se e ficam impunes. Os grandes "comandantes" controlam e amordassam os "soldados rasos". A escrita será sempre um meio de liberdade de expressão. Os "putos" que não viveram essa realidade precisam de saber o que se passou na Guerra Colonial que será o mesmo que dizer... em todas as guerras. Isso da guerra cirúrgica é só "tretas". Eu próprio já nasci com a liberdade (uma semana depois!) mas tive pais que me despertaram e ensinaram a nossa história.
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Olá António.obrigada pela dedicatória.Não me admirei por esta história ter sido censurada. Muitas vezes (ou a maioria das vezes) a ignorância mantém o espírito quieto.Um abraço...
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António,
Voltei. Achei que ainda não tinha dito tudo sobre este conto:Digamos que fiquei chocada sem o ficar. Já conhecia histórias de guerra semelhantes e durante a tese construi à minha volta uma "capa" que me defende psicologicamente destas descrições (tive que a construir de outra maneira não conseguiria ser isenta), mas fazem-nos questionar sempre o bom e o mau que há em todos nós. Fazem-nos questionar em que momentos é que cada um deles se revelam. Em que momentos é que eu serei boa. Em que momentos é que eu serei má...e será que existe meio-termo?Um abraço.
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Olá António,Este seu post é fortíssimo! É do conhecimento geral que em tempo de guerra se passaram muitas atrocidades mas as coisas descritas desta forma, por alguém que viveu e assistiu a tudo, falando de pessoas concretas, torna tudo mais cruel. Entende-se porque foi sensurada! Admiro a sua coragem e discernimento para a conseguir escrever apesar da loucura que se vivia. Doi-me só imaginar as situações e é degrandante perceber o que o homem pode fazer ao seu semelhante.O nativo de Peixes é um eterno sonhador e um sofredor também, sofre por si e pelos outros. Espero que tenha conseguido aprender a viver com todas estas memórias e acho que faz muito bem em deitar tudo cá para fora.Um abraço,.Olá AntónioAinda não tinha vindo a este seu lugar das realidades mais desumanas em tempo de guerra. O pior de tudo é que estas atrocidades continuam presentes no nosso século. Não sei se em situação normal estes seres serão capazes de proceder com tanta falta de humanidade, mas o mal não se desculpa, não tem perdão. As consciências destes energúmenos ninguém as pode ler. Eu acredito que quem mata, seja quem for, com esse sangue frio sabe muito bem que está a praticar o mal e matar uma criança ou violar uma mulher merece...nem quero dizer mais porque sou contra a pena de morte, mas fico tão empaticamente ligada ao sofrimento que a revolta é inevitável..Não vejo motivos para censuras.Um abraço.
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Poderia muito escrever
No papel vago da desolação,
Poderia meu pensamento submeter
À lei da evasão
E por momentos ver
Os desígnios da ocasião.
Mas não o faço por temer
Ser muito vaga, sem determinação,
Por não saber o que foi viver
Aqueles dias de guerra e desolação,
Dias que teimaram em ser
Desgraça e violação.
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Forte este texto. Definitivamente, ninguém fica indiferente às frases desenhadas em "O "Turra Mussolé".Cumprimentos poéticos.
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Finalmente leio alguma coisa sua que realmente me toca, fortissimas nao sao as suas palavras, porque palavras sao só palavras, forte é o sentimento que nos devora ao ler esta historia e o facto de ser real, tenho um bom amigo que também combateu na guerra colonial, e por vezes conta pequenos contos a mesa do jantar que nos faz perder o apetite... contudo nao deve ser censurado, pelo contrario ate deveria ser documentado, falado e exposto, porque a realidade dos factos,a miseria que assumbra o continente africano deve se sobretudo a ganancia, ira e desdem do homem branco.
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Eras negra cativa
espaço de deleito e pecado
tua pele santa e tentadora, de mulher.
teu corpo estilhaçado
num colchao de palha tombado
pronto a satisfazer
Tinhas os olhos cerrados
esses diamantes raros,
nunca mais avistaram a luz
tinhas a alma cadavérica,
gritando por libertaçao
enquanto o pensamento voava
tal e qual uma borboleta
junto ao rio pousava
na tua mão de mãe, de filha, de neta
de alguém, na tua mão de menina
Escorriam-te dos olhos as gotas da fobia
suores frios e trémulos, apoderaram-se de ti
tinhas um crucifixo pendente do peito
a boca manchada se sal e fel
enquanto gotas de sangue caiam
das tuas mãos apertadas
da tua boca cerrada
do teu útero de mulher
Vieram do nada, de terras malditas
aqueles seres uivantes, sedentes de desejo
aqueles seres rastejantes, arfado imundície.
esfregando a pele sebosa e dita cristã
roçando testículos cheiro a escremento
ejaculando vermes de desalento
em teu corpo pequenino, em teu corpo indefeso
salivavam nas tuas ancas que nem cães
agarrados a um osso...
puxavam-te os cabelos, arranhavam-te os braços
pendestes no chão...
Teu seio amoroso, rasgado, dentes em lava
teu seio virgem, despedaçado...
olhos semi-cerrados, espumantes de prazer
olhos esbugalhados vertendo delirios
olhos verde água, olhos dum branco...cheio de tesão
olhos dum branco sem escrupulos, nem coração
Sentiste cada movimento, em ventre...
cada brutalidade viril dum macho nojento
tinhas as pernas bambas descaidas
tinhas os braços tombados, ja sem vida
morreste antes da navalha te degulhar
e o sangue quente jorrar
do teu pescoço de gazela...
morreste... e ninguém estava para velar
a tua morte... ninguém quis saber o teu nome
ninguém sabia quem tu eras...
(poema-comentário duma jovem quanto talentosa poetisa madeirense, referindo-se à violação e assassínio duma negra encontrada na mata durante uma operação militar narrada num dos meus Contos)
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Olá António,Eu quero comentar... mas as palavras não me saiem, estou chocada e arrepiada com este relato, algumas frases custaram-me até a ler, como é possível tamanha crueldade?Mas apesar do meu pouco conhecimento sobre o assunto, em duas coisas tenho a certeza:1º Atrocidades como estas não devem ser escondidas do mundo e os seus autores devem ser denunciados e julgados pelos seus crimes.Um blog como este deveria ser traduzido em várias línguas até.2º Estes crimes só foram cometidos, porque os seus autores detinham o poder e a força, e porque a época assim o permitiu.Provavelmente todos os que tiveram conhecimento destes e de outros crimes, das duas uma:- Ou eram uns zé ninguém, e as suas palavras nunca seriam levadas a sério, se é que conseguissem sequer viver para falar,- ou até tinham poder para fazer algo, mas quiçá eram como os criminosos, ou então desculpavam-nos porque os coitados já estavam a sofrer, longe de casa, etc e tal...Pena não terem sido denunciados e julgados, podia ser que depois de uma estadia na cadeia a serem usados umas catorze vezes por dia mudassem as suas mentes cuéis e nojentas.
Simplesmente magnífico! Belo texto. Muito duro de ler e difícil sequer de imaginar certos acontecimentos descritos... Foi pena não dizer, no seu encontro da Rua Augusta, ao ex-cabo enfermeiro que imaginasse a sua mulher ou as suas duas lindas meninas na situação daquela negra brutalmente violada. No entanto, percebo perfeitamente a sua decisão. Os meus sinceros Parabéns.
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Quem esteve na guerra e presenciou as atrocidades, tem que as contar como as sentiu. Beijos.
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Dolorosos tempos, tempos esses que vivi em Moçambique.Um relato muito bem construído,relatando factos verídicos,parabéns..
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Amigo António,não foi fácil,nada fácil mesmo conseguir ler o texto até ao fim, mas consegui, e ,questiono-me em relação à censura!Porquê censurado? porque a vivência que relatou é a VERDADEIRA VERDADE?Saltem muitos cá para fora como este,para que nós que não fomos à guerra, e os jovens de hoje conheçam a VERDADE!Eu, pessoalmente nem numa situação de guerra consigo compreender actos tão BÁRBAROS!Será que estavam loucos?será que a guerra serve de desculpa para que o homem cuspa toda a sua raiva sobre inocentes?É asqueroso, é nojento, é...eu nem sei como classificar esse cabo-enfermeiro!!!!Devia ser julgado, condenado,por todos os crimes de guerra.Será que esse DESGRAÇADO dorme tranquilamente sabendo e tendo consciência do todo o horror que deixou para trás?!Que pena não ter sido eu a cruzar-me com ele na Rua Augusta...naquele momento,mulher e filhas ficavam com a certeza do MONSTRO que as acompanhava...Não tenho capacidade de perdoar esse tipo de...CANALHAS!!!NUNCA!!!!...Essas editoras que mandem mas é cá para fora esse livro.Eu não posso esperar 50 anos...PS:Outra coincidência:Sou natural de Moçambique(Beira)-Distrito de Manica e Sofala...isto foi só para desanuviar um pouco...Beijinhos.
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Vim ao seu blog, depois de andar por aí...Cheguei ao seu conto, quis ver porque teria sido censurado...É um relato muito forte. De tal modo bem escrito e descrito que me transportou ao local, ao cheiro, à cor, às vozes...Parabéns! Continue a escrever! Eu virei ler com tempo e atenção, porque o merece!Abraço terno
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Por um acaso, descobri o seu fantástico blogue.São actos como os praticados por esse cabo-enfermeiro que envergonham e enlameiam todo um exército. Estava a ler o seu (belo e terrível) relato sobre essa bela negra e ansiava que no fim tudo fosse diferente. Mas não. Angustiante...Vou ler todos os seus contos.Abraço!
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António,apesar de saber tantas histórias que se passaram, esta contada por ti que as vivenciaste, que lidaste com esta gente, chocou-me muito.Era muito importante que toda a gente pudesse ler o que realmente se passou para puder entender o sentimento de quem viveu aquela guerra.Tomara que algum dia consigas publicar o livro. As verdades são para ser ditas!Fazes bem em evidenciar as diferenças entre os militares que estiveram na guerra colonial. Esse homem é um sádico e um assassino. Não consigo desculpabilizar também os que participaram em violações por mais perturbados que estivessem.Guerra é lutar com armas contra pessoas armadas!Um beijo grande.
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Gosto muito da forma como escreve.
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Ainda não tinha lido este seu poema:Quando a dor é assim tão grande não há vontade de regressar, mas o regresso quando acontece traz muito para dar.Grande beijo, muito grande
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Nem sei porque parei aqui.A sua guerra foi em Angola e a minha na Guiné.Desperou-me uma curiosidade muito grande juntamente com o desejo de saber porque fomos nós os mártires desta guerra sem nome nem rosto.Depois o seu estilo leve e ao mesmo tempo misterioso fez-me seguir em frente e acabar por conhecer o sofrimento alheio.Não consigo entender.Não quero perceber nem tão pouco continuar neste sofrimento.Sofreram os pretos e sofremos nós.Afinal a quem aproveitaram todas as vidas destruidas e humilhadas...?
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Parece-me que já tinhas feito esta publicação ou então eu já a havia lido por aqui. Sim recordo-me desta guerra fria e surda. Cega e vil.Tantas coisas que nunca foram ditas e que a maioria dos portugueses nem sonha o que por lá sofremos
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Continue as escrever as suas memórias de guerra, os jovens devem saber do passado mais próximo, tanto quanto do mais distante, pois estes Contos parecem ter ainda o cheiro dos cadáveres e o medo dos homens que para lá mandavam, estupidamente para nada - minto - para morrerem, para matarem, para sofrerem depois as sequelas dessa estúpida "missão": ANGOLA É NOSSA!
Com muita amizade
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António Pais
Fui algumas vezes a Nambuangongo, em colunas de abastecimento. O meu Esquadrão substituíu uma Companhia do lendário Tenente-Coronel Maçanita, que retomara Nambuangongo. No meu blog está uma série de artigos, cujos créditos, são devidos ao diário que elaborei, durante a Comissão, publicados no "Jornal da Amadora" e já proposto a Editoras. Mas como não é mediático!...
Gostei muito do seu texto, aquilo a que chamo livro estará pior, é diferente, digamos que é autobiográfico, pretende retratar realidades de praças na caserna e a partir da...
Tem apresentação dum catedrático, a leccionar em Madrid.
Um abraço
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Amigo António, estou a começar a ler os seus Contos da Guerra Colonial, essa guerra estúpida sem qualquer sentido, que apenas serviu para destruir a vida de muitos "meninos", muitos que partiam sem tão pouco perceberem o que iam defender, apenas cumpriam ordens!!!
Quantos lhe teriam aparecido pela frente e ficarem admirados com a imensidão do mar aquando da ida para a dita missão???
Afinal quantos foram com a perfeita convicção do que iriam defender? Quantos tinham preparação para política para entender o porquê de tal ordem?
Não era preciso claro, até porque quanto mais "ceguinhos" melhor, muito melhor para moldar ao belo jeito fascista!...
Tanto jovem sofrido e afinal para quê?!!!
ANGOLA É NOSSA...o TANAS!!!
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Quer um conselho?Esqueça a Guerra Colonial recordá-la faz mal pode crer.
Fique bem e o que lá vai lá vai
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Boa noite
Também malhei com os costados na Guiné em 73/74.
Aprendi a comer manga, mandioca e tudo o que conseguíssemos apanhar.
Muitos dias com medo de emboscadas nem conseguia dormir.
Havia soldados naturais a viver connosco e só pensava que um dia eram eles que nos limpavam com as catanas.
Como alguém aqui disse: "Será melhor nem reviver esses dias e procurar outros pensamentos"
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Caríssimo, como os demais colegas estou ansioso de ler os teus contos sobre as guerras coloniais.
Tenho alguns amigos Coronéis em Portugal que já me descreveram as suas versões guerreiras, ou pontos de vista, possuo vários livros deles sobre a matéria, poderia ter sido um dos heróis ou mártires dessas guerras sem nome, por sorte ou azar caí em Timor, minha segunda ou terceira terra...
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REITERO OS MEUS AGRADECIMENTOS ÀS MINHAS AMIZADES DA BLOGOSFERA.
Beijinhos e abraços
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António Pais

NAPALM E LANÇA-ROCKETS


Os governos isolacionistas de Salazar e do seu continuador Marcelo Caetano teimavam em jurar a pés juntos perante a comunidade internacional que jamais haviam utilizado substâncias tóxicas (hoje conhecidas por armas químicas) ou outras, proibidas pela Convenção de Genebra.
Porém, os militares mais esclarecidos sabiam que tais afirmações constituíam uma mentira.
Aqueles que tiveram o arrojo de as denunciar estavam exilados e a suas palavras careciam de provas, as quais, obviamente, só poderiam ser obtidas no cenário da guerra.
Os que se encontravam nas matas manuseando-as e aplicando-as ou os que assistiam aos seus efeitos, em tempos da chamada guerra de acção psicológica não viam, não ouviam e calavam, pois corriam o sério e inevitável risco de serem sumariamente abatidos pela Polícia Política.
Os lança-rockets encontravam-se entre o equipamento bélico considerado proibido e também a sua utilização era categoricamente desmentida.
Foi com alguma imprudência, talvez traduzida pela inconsciência dos vinte anos de idade que eu e o Carlos Barros, munidos de uma máquina fotográfica, bem escondida no vestuário, nos deslocámos à pista de terra batida em Quicua (distrito do Uíge) com o objectivo de captar as imagens interditas. Aproveitámos a hora da refeição e tão rápida quanto furtivamente tirámos, sem que ninguém se houvesse apercebido, algumas fotografias a uma avioneta militar : uma DO (Dornier) suportando por debaixo de cada asa aquelas armas altamente destruidoras, as quais os nossos governantes escondiam ao mundo.

O TREINO PSICOLÓGICO

Ali em pé, ao balcão daquele restaurante que eu havia escolhido para comer uma sandes acompanhada dum refrigerante, pois o excesso de trabalho obrigava-me a uma refeição rápida, acabei por me demorar muito mais do que o inicialmente previsto. Despertou-me a atenção uma conversa do indivíduo na faixa etária dos sessenta que se encontrava mesmo ao meu lado e que relatava, com a boca cheia, a forma como tinha decorrido a cerimónia do Domingo anterior a que ele havia ido assistir com a sua esposa : o juramento de bandeira dum seu afilhado, agora paraquedista. A determinada altura contava ele ao seu companheiro algumas peripécias impressionantes relacionadas com a dura instrução a que o seu afilhado agora boina verde havia sido sujeito. Repentinamente, levou um guardanapo de papel à boca, num esforço visível e incontrolado para conter o vómito iminente. Relatava naquele momento como terminavam os testes de apuramento daquela futura tropa de elite. Cada militar, para ganhar a boina, tinha de matar uma galinha à dentada !!!
Paraquedistas, Comandos, Operações Especiais, Fuzileiros e Rangers eram tropas alta e duramente preparadas para a guerrilha que haviam de enfrentar em terras de África.
Lembro-me dum amigo da adolescência a quem o cabelo caíu em peladas dispersas e o seu rosto ficou coberto de crostas em virtude da enorme pressão psicológica durante o decorrer dos treinos de especialização. Certa noite foi abruptamente acordado por volta das três horas, conduzido pelo cabo-de-dia ao Comando e aí foi-lhe friamente anunciada a morte do seu pai. O “choque psicológico” estava dado ! Alguns minutos mais tarde o oficial e o cabo de serviço transmitiram-lhe a contra-informação. Era mentira ! Aquela encenação fazia parte dos planos de treino. Os treinos psicolígicos não se ficavam por aqui, mas eram, sem dúvida, os mais marcantes para a preparação das forças de elite. Caminhar pelos esgotos, submersos até ao pescoço com todo aquele líquido imundo e a merda a tocar-lhes na boca, tudo isso não passava duma brincadeira se comparados com os outros treinos que me repugnam descrever. Visavam transformar um pacato, quiçá mimado e sempre perfumado rapaz, numa máquina de guerra apta a enfrentar todas as dificuldades com as quais decerto haveriam de se confrontar no cenário de guerra.
Partiam da Metrópole convencidos da sua intensa e apurada preparação física e psicológica, desejosos de entrar em combate. Contudo, por vezes, quando subiam e actuavam no real palco da guerra, esqueciam ou descuravam aquilo que com tanta insistência lhes havia sido ensinado. Durante a instrução os monitores não se cansavam de repetir que “suor derramado na instrução era sangue poupado em combate” !
Do soldado Comando Belmiro nunca mais tive notícias desde que veio evacuado para a Metrópole. Durante uma operação foi transportado, juntamente com outros camaradas, num helicóptero Puma até ao local onde era suposto irem defrontar-se com o inimigo.
Estes bem preparados “Rambos” manifestavam inquietação : uns benziam-se, outros rezavam, esforçando-se por abafarem e travarem os movimentos quase incontroláveis do bater acelerado dos maxilares. – Ânimo, meus bravos ! Vocês são os melhores ! – assim gritava, superando o ruído envolvente, um superior, enquanto os ia empurrando da altura a que se encontrava aquela máquina voadora, a qual por ali pairava sobre a mata verde apenas durante alguns segundos. Depois afastava-se, veloz, desaparecendo dos seus campos de visão.
A dura experiência adquirida nos treinos traíu o soldado Belmiro na altura do salto. Trinchou a própria língua, ficando metade dela sepultada ou devorada pelas formigas naquele minúsculo pedaço da tão extensa terra angolana.

EXTRACTO DOS MEUS CONTOS: "HISTÓRIA DUM CARTEIRO À MODA ANTIGA DURANTE A GUERRA COLONIAL"

Este texto é uma súmula de histórias mais ou menos longas e que relatam uma parte da vida profissional do meu saudoso pai como Carteiro. Curiosamente, durante a minha especialização militar, estudei uma disciplina relacionada com esta actividade muito complexa (SPM-Serviço Postal Militar).
Após o 25 de Abril quem era interpelado na rua por um Carteiro retraía-se quase sempre em virtude do seu difícil reconhecimento. De cabelos grandes e despenteados, barba desgrenhada, calças de ganga e calçado de ténis sujos e rotos. Apenas o monte de cartas na mão nos permitia a sua identificação. Outrora o Carteiro tinha a obrigatoriedade de apresentar-se à sociedade tal como os restantes funcionários públicos, sobretudo fardados, ou seja : bonito por fora, não importando a desarrumação interior... Assim, o cabelo deveria estar bem aparado, a barba muito bem escanhoada, as unhas dos dedos das mãos curtas e limpas, os sapatos pretos muito bem engraxados, os metais do boné, lapela do casaco e botões areados até reluzirem e um sorriso sempre patente para oferecer aos “destinatários”.
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Lá vem o Carteiro ! Lá vem o Sr. Mário !

Ouvi-lo chegar agora
Já não tem o mesmo sabor
Nem dá p’ ra haver amizade

Chega lesto e vai embora
Sobre rodas e a motor
Perdeu de todo a vaidade
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Após muitos anos – nunca se sabia quantos – com a categoria de Carteiro de Reserva, pois enquanto nessa condição todo o tipo de serviço tinha de ser cumprido e o giro (zona de distribuição da correspondência) nunca era certo. Se quisesse progredir na carreira teria de submeter-se a um curso que o obrigava a muito trabalho e estudo para depois enfrentar um concurso e a consequente, embora nem sempre isenta, avaliação profissional. O meu pai lá foi promovido a Carteiro de 3ª, alguns anos mais tarde a 2ª, até atingir a categoria de 1ª, acabando reformado com uma que nem sequer chegou a exercer : a de Monitor.
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Farda/Fardo

Aquela farda envergando
E grande honra tendo nela
A vida-fardo carregando
E sempre achando-a tão bela !
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Foi um percurso muito duro, repleto de histórias às quais os mais novos não têm acesso e quando têm dificilmente compreendem e nem sequer acreditam.
O país estava embrenhado na Guerra Colonial e os mancebos eram recrutados por todo o lado, independentemente das suas capacidades psíquicas ou físicas.
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As relações sociais num aglomerado populacional predominantemente rural não eram, como ainda não o são, obviamente, iguais aquelas dos condomínios convencionais nas grandes cidades, nos quais mesmo que os prédios só possuam um elevador a servir dois ou três pisos, os condóminos quando se encontram a viajar nele apertados, pele contra pele, não se cumprimentam, ignorando-se entre si enquanto aquele caixote sobe ou desce, uns esforçando-se por olharem para o tecto, outros baloiçando as chaves do carro enquanto vão mirando a barguilha, outros, os “agarradinhos do celular”, enviando ou procurando mensagens e outros, até, aproveitando despudoradamente para coçarem os tomates. Na maior parte das vezes nem sequer manifestando uma cortesia, mesmo que hipócrita, de segurarem a porta quando o vizinho ou a vizinha vão a entrar ou a sair... Curiosamente podem encontrar-se algumas destas pessoas na missa dominical cumprimentando-se efusivamente, “saudando-se na paz do Senhor”, com muita fé (...)
O Carteiro, por demais carregado com tanta notícia de riso e choro, surgia cada vez mais perto em virtude das suas passadas sempre muito largas, enfrentando finalmente o primeiro aglomerado ruidoso e inquieto : os seus destinatários que diariamente ali, sensivelmente no mesmo horário, aguardavam notícias dos seus netos, filhos, maridos, pais, namorados ou simplesmente vizinhos e amigos. Aqueles aerogramas, cartas ou postais haviam sido escritos há pelo menos dois dias, as notícias que relatavam poderiam, entretanto, de alguma maneira, haver sido drasticamente alteradas. Mas não ! Quem se atreveria a pensar assim ? O ritual da abertura da correspondência era sempre o mesmo : rasgava-se apressadamente o aerograma ou a carta como se do seu interior se esperasse ver saltar milagrosamente, de braços bem abertos, o ente querido.
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Carteiro e Conselheiro

Quase todas as famílias portuguesas
Tinham no Carteiro um elo muito amigo
Que os ligava da Guiné até Timor

Trazia cartas / ”aeros” d’ incertezas
- O seu menino não corre qualquer perigo !
(Sorria sempre escondendo a sua dor...)
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Àquele Carteiro foram também levados para a guerra dois dos seus três filhos. Com o coração bem apertado pelas amarras da angústia, lá ia distribuindo as notícias, por vezes com a dificuldade dos atropelos das pequenas multidões ansiosas, mas mantendo sempre patente no seu rosto suado um sorriso autêntico enquanto da sua veia poética iam brotando simultaneamente palavras de ânimo, esperança, fé, embora educadamente fosse avançando sempre, porque ainda havia muita correspondência para distribuir e também desejoso estava ele de chegar a casa e saber dos seus...




LAURA

Tela de Neves de Sousa(imagem do blogue: http://coresepalavras.blogspot.com)
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Enquanto permaneci instalado no Batalhão de Sanza Pombo, aguardando transporte para Quicua, acabei por ser requisitado para aí prestar serviço da minha especialidade durante uns quinze dias, substituíndo um camarada em férias.
Durante uma folga fui convidado por outro Operador de Cripto a fazer uma visita à enorme sanzala que aí tinha vindo a crescer. O objectivo era, naturalmente, procurar umas negrinhas e passar um bom bocado na sua companhia. Encontradas duas amigas que passeavam juntas, metemos conversa, tendo o meu camarada a egoística atitude de se lançar àquela que, aparentemente, era a mais boazona. Puro engano o seu ! Contou-me posteriormente que deu-lhe algum dinheiro (não havia ali preço previamente estabelecido) e foi-se logo embora, desiludido. Enquanto praticava o “acto” ela arrotou e ele foi obrigado a desviar a cara. Ela pediu-lhe desculpa e continuaram. Porém, aquela negrinha bonita e boazona, fã dum cantor brasileiro muito pequenino, mas em voga : Nelson Ned, começou a cantar : “receba flores que lhe dou...”. O rapaz, num gesto brusco, levantou-se, vestiu-se e dali fugiu a sete pés.
A minha Laura, uma rapariga baixa, franzina, frágil, manifestou uma ternura incrível para uma situação de ocasião como aquela. Descobrimos quase instantaneamente que existia empatia entre nós. Era uma rapariga muito educada, com conversas interessantes. Só voltei à Unidade para jantar, saíndo novamente para dormir (ou melhor, passar a noite) com ela. De manhã encontrava-me tão esgotado que nem a Miss Mundo me convenceria...
Namorámos, ou melhor, fomos amantes, durante cerca de seis meses. Sempre que me surgia uma oportunidade lá ia eu, mais ou menos clandestinamente, até Sanza Pombo, uma viagem de ida e volta efectuada em picada e com várias horas de percurso. Mas sabia-me bem. Chorámos na despedida e deixei-lhe como recordação um rádio transistorizado. Já na Metrópole ainda trocámos correspondência. Deu-se o 25 de Abril, seguido da guerra civil em Angola. Nunca mais tive notícias da minha amiga Laura Manuel.

A DESCOBERTA DOS ELEFANTES

Não existindo água potável, o sistema de abastecimento era efectuado do seguinte modo :
Fazíamos deslocar até ao rio uma viatura pesada Berliet com uma cisterna enorme na caixa de carga. O relativamente pequeno percurso era acompanhado de escolta e todos os camaradas que aproveitavam para lá se irem banhar ou apenas refrescar iam armados. Esta regra nem sempre era cumprida, pois embora mesmo para nos deslocarmos ao balneário e sanitários a G-3 nos devesse sempre pesar no ombro, a rotina, por vezes, tentáva-nos a descurar as medidas de protecção e segurança que se impunham. O mesmo acontecia em relação à eventual minagem dos trilhos e picadas sobre as quais nos deslocávamos. Por vezes apelidavam-me de inconsciente ou imprudente, eu sabia que sim, e não discutia. Acabávamos por constatar, contudo, que realmente nenhum ser humano suportaria a pressão psicológica de ter medo durante tanto, tanto tempo de comissão. Por vezes, sentado no banco lateral dum Unimog, com a G-3 entre as pernas, apoiava o queixo no tapa-chamas e com os pés bem fixos acabava por adormecer, durante alguns momentos, claro. Dizia, então, para comigo : - Seja o que Deus quiser !
Chegados à beira do rio, uma mangueira flexível, com um diâmetro de mais ou menos dez centímetros, era colocada no seu leito de águas correntes embora vagarosas, o motor barulhento era accionado e procedia-se assim à sucção da água necessária, ou seja, até ao completo enchimento da cisterna.
O camião tinha o seu local de repouso sempre no mesmo sítio e as suas torneiras forneciam-nos o precioso líquido. Contudo, antes de se proceder à sua utilização o meu amigo Serra levava da tenda a caixinha de madeira que continha o equipamento e os produtos químicos necessários à sua análise e tratamento.
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Os balneários e sanitários haviam sido construídos pelos mais habilidosos, já experimentados em trabalhos similares. Cavaram uma fossa e para lá se dirigiam, através das tubagens, os detritos líquidos e sólidos. Os urinóis eram totalmente feitos com argamassa, com dois pisa-pés e um buraco ao centro.
Apoiados em pilares de madeira, a uma altura de aproximadamente três metros eram colocados vários bidons de duzentos litros, ligados na base entre si, para assim criarem uma energia potencial cinética maior, fazendo jorrar um fluxo de água ideal à sua saída dos chuveiros fixos nas paredes.
Certo dia acordámos com um odor insuportável, o qual se difundia por todo o aquartelamento. Aquele cheiro já nos era, de certa maneira, familiar, só que agora havia-se tornado muito mais intenso. E a nossa memória depressa nos ajudou a descodificar aquele insólito acontecimento. A cisterna já havia suportado dois dias de intenso calor. Sendo a água um líquido insípido e havendo aquela sido analisada e devidamente tratada, logo atribuímos ao analista Serra a culpa por tal facto, pois, no nosso imediato juízo, ele havia trocado os produtos químicos ou exagerado na sua aplicaçao.
À medida que aqueles quilolitros de água foram sendo chupados pela mangueira e derramados naquele chão ligeiramente inclinado, começámos a ver surgir fragmentos que se assemelhavam e cheiravam a palha podre, os quais não eram, de forma alguma, suposto repousarem no fundo da cisterna.
O Serra foi imediatamente investigar o local do rio onde aquela água havia sido sugada. Procurou, às apalpadelas, na pequena profundidade daquele rio de águas frescas, e concluíu de imediato a sua investigação. Trazia nas mãos pedaços enormes de bosta de elefantes e nas margens acabaríamos por detectar as pegadas que indiciavam a passagem recente da manada duma margem para a outra.

O MÉDICO MILITAR

LARVA DE ANOPHELIS, causadora do Paludismo
Geralmente, na mata, a presença do médico fazia-se substituir pela maior ou menor experiência do furriel ou do cabo enfermeiro. Estes últimos iam adquirindo um traquejo clínico e até cirúrgico, por forma a colmatar a ausência dos alferes-médicos, recém-formados e obviamente, sem currículo e, na maioria, sem vocação.
Naquele dia quente aterrou na pista do nosso aquartelamento um alferes-médico para efectuar, durante uma semana, um rastreio clínico aos militares e população autóctone.
No primeiro dia de consultas observou dezoito pessoas e a todas elas diagnosticou paludismo (doença tropical contraída em consequência da picada dum insecto). Haviam-lhe ensinado durante a especialização que aquela era a doença mais frequente nos países tropicais. O tratamento preferencial, aliás não havia outro, era ministrado sob a for de comprimidos : Resoquina, para além do controle constante do estado febril, aplicando-se panos molhados sobre a testa e todo o resto do corpo, substituindo-os sempre que necessário. Na minha tenda chegámos a fazer turnos, dia e noite, a um camarada com hipertermia.
Resoquina tomava-se por tudo e por nada. Continha uma substância de alto teor de acidez e por isso devia ser tomado com muita água e, caso houvesse, algo sólido (uma côdea dura de pão, por exemplo). Quando prescrito havia sempre o cuidado reiterado de indicar ao doente aquele procedimento.
No último dia da visita do médico ao aquartelamento, e dado encontrar-me muito debilitado física e psicologicamente, resolvi colocar-me na fila para solicitar ao médico autorização para me serem fornecidas cápsulas vitamínicas, que eu sabia existirem num armário da Enfermaria, assim como o ansiolítico, hipnótico, miorrelaxante e anti-convulsiomante DIAZEPAM. Assim, evitaria ao meu amigo enfermeiro (por vocação) Luis Duque futuros constrangimentos e até uma eventual sanção disciplinar sempre que mos trouxesse, um a um, às escondidas. O Luís era um excelente rapaz e um bom amigo. Decorador e vendedor de móveis tornou-se num paramédico excepcional, a quem não o conhecendo, se lhe poderia retirar o “para”. Tinha vocação e era dedicado e exemplar tanto nos diagnósticos como nas pequenas intervenções cirúrgicas. O cansaço psicológico daquele ambiente bélico já não lhe permitia aplicar uma injecção sem primeiro beber uma cerveja Nocal. Chegava a beber trinta cervejas por dia, mas sempre lúcido e alegre : “tinha bom vinho ! “, como na gíria se costuma dizer. Também daria um bom psicólogo.

Apenas um exemplo : Entra um negro de aspecto robusto na Enfermaria e, com algum constrangimento, mas logo apoiado pela forma como foi recebido e entendido pelo Luís Duque, acaba por “confessar” ter “perdido apetite pelas mulher”, solicitando “remédio” para que “a coisa voltasse funcionando”. O Luís conversou com ele, examinou-o, achou tudo normal e atribuiu aquela disfunção a factores de ordem psicológica. Então, entregou-lhe um comprimido branco sem marca (tratava-se daqueles comprimidos que colocávamos regularmente na água e que se destinavam a compensar a perda de sal).
O negro saíu agradecido. No dia seguinte aparece novamente na Enfermaria, com um sorriso atrevido, dando um apertado abraço ao meu amigo enfermeiro, dizendo-lhe com um incontido agradecimento : - Pucha, nosso cabo, aquela medicação é tiriqueda ! Duas mulher, pucha, duas mulher, nosso cabo !
Porém, apoiado no seu “incontestável conhecimento científico”, o senhor-doutor-alferes-médico entendeu também diagnosticar-me paludismo. Dado o meu estado de fraqueza aceitei o seu diagnóstico e, após a consulta, corri a tomar o Resoquina. Eu (tal era o meu estado) que não me cansava de aconselhar aos outros que tomassem aquele medicamento com muita água, ingeri-o apenas com um golinho. O resultado depressa se fez sentir : vómitos consecutivos seguidos de prolongados e incontroláveis espasmos. Fui evecuado para o Posto Médico do Batalhão. Aí esperei e desesperei, sofrendo as dores e o mau-estar a nível do aparelho digestivo, durante quatro longas horas, até ao regresso do senhor doutor que se havia deslocado a uma frente de combate para acorrer a uma emergência (o doente era Oficial, claro !).
Quase noite, o senhor doutor chegou a Sanza Pombo e, como já tinha recebido via rádio a indicação da minha presença e estado aparente de saúde, dirigiu-se imediatamente ao Posto Médico.
Aí, preparou a seringa, tentando, por via endovenosa (pela veia) aplicar-me uma substância que eu reconheci como sendo a substância activa dum medicamento já conhecido : Buscopam. Mas foi com enorme dificuldade que o médico conseguiu “encontrar” a veia. A seringa já continha sangue quer no interior quer no exterior. O meu bracinho ia sendo picado várias vezes até que acabou por acertar e injectar apenas a metade do líquido que restava.
Após o “muito-obrigado senhor doutor”, ele ainda me passou com um antiséptico no braço que se ia tornando arroxeado, dizendo-me : - É pá, tu tens uma veia extremamente difícil de encontrar !
Arrastei-me até ao fundo da única rua existente, entrei numa loja, daquelas que vendem de tudo, comprei uma cerveja preta e dois ovos. No aquartelamento fiz uma gemada e tomei-a. Quando tomei conhecimento de que só daí a uns dias havia transporte até Quicua, nos dias seguintes voltei a repetir o tratamento caseiro mas efectivamente eficaz, que eu havia aprendido com a minha avó.
Terminada a comissão de serviço e já na Metrópole, a Empresa onde reocupei o meu posto de trabalho, tinha já um protocolo com uma Clínica na qual se praticava a Medicina do Trabalho. Para além da consulta e respectiva radiografia ao tórax mandaram-me fazer análises ao sangue e à urina. Entrei naquela salinha branca onde andavam dum lado para o outro duas meninas também todas muito branquinhas, desde a touca aos sapatinhos ortopédicos. Uma delas, a loirinha com carinha angelical – devia ter uns vinte anitos – mandou-me sentar, colocou-me o garrote e preparou a seringa para a extracção de sangue para análise. Senti um calafrio e não pude deixar de a advertir : - Menina enfermeira, eu tenho uma veia muito difícil de encontrar ! Olhei para o lado, pois na altura fazia-me impressão a picadela, e ela, quase de imediato responde-me com uma vozinha tão doce : - Não tem nada, não senhor ! Já está, viu ?

A RAÇÃO DE COMBATE

Medindo um metro e setenta e cinco centímetros de altura, o meu peso situava-se em cinquenta e nove quilos. Decorria o mês de Novembro de 1972 e a comissão de serviço terminava no mês seguinte. Havia ainda pela frente um Natal e uma passagem de ano, eventos que já não provocavam tanta dor como os anteriores. Agora sim, sabia que seria o último Natal , desta vez passado em Luanda e, no dia vinte e oito daquele Dezembro terminava, física e geograficamente a presença naquele martírio com a duração de vinte e quatro meses. Psicologicamente, já o sabia, haveria de me afectar até ao resto da minha vida.
A Ração de Combate tornou-se, contudo, numa das melhores memórias que o tempo de guerra ofereceu.
Mal alimentado, deslocava-me até à sanzala e comprava ovos. No bar dos soldados adquiria a cerveja preferida, a Nocal, fazia uma gemada e tomava-a pois sabia que aquele composto representava um remédio fortificante de alto teor calórico e nutritivo.
Uma Ração de Combate continha latinhas de conserva e sumos enlatados que substituiam uma refeição equilibrada.
Sempre que os meus camaradas partiam para uma operação na mata, invariavelmente por volta das 5 horas da manhã, lá me encontrava eu confortando-os, brincando na medida do aceitável, olhando-os um a um, perguntando-me a mim próprio qual deles regressaria cadáver, cego, mutilado ou louco... Geralmente a despedida era um acto mudo. Apertava com mais ou menos força um dos braços daqueles rapazes carregados como se fossem para uma expedição. Ou , simplesmente, colocava-lhes a mão sobre um dos ombros, sempre sem palavras, mas que significava : - Coragem amigo, cá te esperamos !...
A cada um daqueles rapazes era distribuída uma ou mais rações de combate, conforme os dias previstos para a operação na mata. E se um deles não gostava de sumo de pêssego trocava-o por uma lata de atum com aquele que detestava aquele peixe. Efectuadas as trocas entre si, sobravam sempre umas latinhas que, no entender de alguns, só serviam para os carregar ainda mais. Por isso, valia a pena sujeitar-me (não era só eu, evidentemente) àquela cena angustiante, mesmo que o cacimbo ainda molhasse bastante, para conseguir umas latinhas do que quer que fosse. Era também o instinto de sobrevivência a funcionar.
No verso duma fotografia enviada, naquela ocasião, à família encontrava-se a inscrição : “ Aqui o Pinto Calçudo engana a malvada”.
Bebendo um delicioso suminho de pêssego e na mão esquerda agarrando com força, como temendo que fugisse, um pedaço de pão duro e seco.

A CÓLERA


Vibrio cholerae ou vibrião colérico, bactéria vista ao microscópio, agente causador da cólera
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Febre, vómitos e diarreia eram os principais e mais visíveis sintomas da terrível epidemia. Por todos os meios disponíveis e por toda a parte se faziam apelos à manutenção redobrada dos cuidados higiénicos, assim como à repetida lavagem dos alimentos crus e também quanto à fervura da água, quer se destinasse a ser bebida, quer para a confecção das refeições.
Por ser considerada uma doença contagiosa todas as pessoas que apresentassem os sintomas eram evacuadas o mais rápido quanto possível para unidades hospitalares.
Evacuações, a maior parte delas, efectuadas nos helicópteros da Força Aérea.
O surto epidémico passou a preocupar-nos mais do que a guerra. Em consequência da tenebrosa doença o intenso e também febril movimento das mensagens recebidas e expedidas, as quais se atropelavam umas às outras, foram quebrando as regras da prioridade. As mensagens classificadas como “Rotina” desapareceram. As “Urgentes” passaram a “Imediato”, tomando estas últimas a classificação de “Relâmpago”. Agora todas eram “Relâmpago”, classificação geralmente só utilizada em casos extremos.
Certa noite, por volta das três horas, acordei com todos os sintomas da Cólera. Os meus maxilares embatiam incontrolavelmente um contra o outro ; um calor abrasador em todo o corpo, associado ao suor que já havia alagado a roupa interior e os lençóis. Saltei do beliche, provocando a queda o despertar do meu camarada do “rés-do-chão”. Entretanto, todos os outros camaradas despertaram em virtude daquele barulho invulgar. Acenderam o candeeiro a petróleo, pois o gerador era desligado à meia-noite.
Pedi ao meu amigo Bárbara que me colocasse a mão na testa, verificando assim, pela apalpação, se eu estava assim tão quente quanto me parecia estar.
- Estás gelado, pá ! Estás mesmo fresquinho ! – gracejou, tentando animar-me.
Ele sabia que eu era um indivíduo nervoso e muito sensível e, em virtude do nosso cansaço, conjecturou imediatamente que o meu estado seria de origem psicológica.
Abriram uma lata de leite condensado, aqueceram-na, misturaram-lhe Ovomaltine e algum açucar e colocaram-me a caneca de loiça entre as duas mãos para que as aquecesse. Ligaram o rádio transistorizado. Enfim, aqueles rapazes cansados e acordados em sobressalto a meio da noite só voltaram a repousar depois de me verem mais calmo e também eu lá me deitei e adormeci tranquilo pensando no que os efeitos exteriores podem causar ao nível da mente...
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NA VILA DE SANTA CRUZ

Pertencendo a uma Unidade de Recompletamento, e em virtude de a Companhia de Artilharia na qual havia prestado serviço ter regressado à Metrópole, fui colocado numa Companhia de Engenharia que se encontrava instalada no norte, na simpática embora desabitada vila de Santa Cruz.
Já tinha acabado de assistir ao espectacular pôr-do-sol. Era hora de jogar às cartas, ao monopólio, ler ou simplesmente ouvir música. É verdade ! Ouvir música ! Através dum rádio pequeno e transistorizado, a cuja antena se enrolava um arame extenso e, em onda-curta, com os inevitáveis mais ou menos acentuados ruídos de fundo, captava os muito bons programas nocturnos e realizados por excelentes profissionais, quer os mais consagrados e oficiais difundindo a partir de Luanda, quer os esforçados regionais, ou mesmo ainda os estrangeiros, a partir do Congo ou até da África do Sul. De Luanda recordo com nostalgia o “Café da Noite”, na voz de Sebastião Coelho ; a Rádio Ecclesia ; os programas que apenas “passavam” música africana ; os frenéticos sul-africanos emitindo a partir de Joanesburgo : “You are listening to the radio RSA, the voice of South Africa...”
O comandante da Companhia de Artilharia responsável por aquela vila, um capitão psicologicamente desequilibrado era assessorado por um segundo-comandante, um alferes miliciano, figura repugnante a sugerir um daqueles oficiais SS das tropas nazis.
Filho dum brigadeiro, segundo se constava, valia-se desse facto para impôr a sua desmedida autoridade aos seus subordinados, tratando-os mesmo abaixo de cão. Usava um chicote na mão direita e passava todo o tempo batendo com ele na própria perna. Tinha, decerto, plena consciência de que o seu aspecto físico era gémeo do seu carácter asqueroso. Era, realmente, uma personalidade aberrante, descontente consigo próprio ou com a Natureza que o moldou com tantos defeitos de fabrico. O alferes Mota Freitas jamais me saíu da memória superficial, pois somente nos livros e filmes de ficção conheci uma figura tão desumana.
A Engenharia militar tinha vindo a realizar nesta zona melhoramentos importantes e os Movimentos de Libertação tinham perfeita consciência de que estávamos a trabalhar para eles. Além disso, desde que não os perseguissem, também não faziam mal a ninguém. Mas existiam militares que não gostavam daquele sossego, estavam sempre na expectativa de “desenferrujar o armamento”. Então, com um comandante com um perfil desiquilibradamente belicista, o apetite aguçava-se-lhes e estavam sempre desejosos de entrar em acção. Outros, então, trabalhavam, cumpriam escrupulosamente com o seu dever, mas aproveitavam os seus momentos de lazer para fazer canteiros com flores ou passear de carro de mão, como ilustram as fotografias :


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A vila de Santa Cruz, à semelhança de tantas outras, havia sido projectada numa extensão de mais ou menos quinhentos metros, com vivendas de rés-do-chão ladeando uma estrada asfaltada. As casas encontravam-se desabitadas e visivelmente degradadas no seu exterior. E complementavam-na, como em quase todas as cidades e vilas angolanas, se bem que estrategicamente afastada, uma sanzala, donde provinha a mão-de-obra marcada com os centenários ferros da escravatura.
Naquela vila encontrava-se um destacamento composto por uma Companhia de Artilharia formada na sua generalidade por soldados africanos, o Comando duma Companhia de Engenharia (na qual eu me integrava) e um Pelotão de Morteiros, oriundos da ilha da Madeira.
Os soldados negros denotavam uma grande preocupação em competir, sem dúvida para melhor, com os chamados “bimbos” da Metrópole. Tornava-se, inclusivamente, agradável, ouvi-los a discutir futebol. Eram muito asseados, esforçavam-se na escolha das palavras durante as conversas que mantinham entre si e, sobretudo, connosco. Nunca diziam que a mulher havia tido um filho ou parido, mas sim “a minha esposa concebeu...” Não me importaria de ter passado a comissão integrado numa Companhia angolana !
Certa noite, um soldado da Companhia de Morteiros que procedia à vigília num dos extremos da vila, avistou uma luz movimentando-se ao longe, na mata. Desatou aos tiros. Alarmou todo o pessoal militar. Muitos deles andavam fartos da monotonia em que há muito, e felizmente, se vivia. E o desejo latente de desenferrujar o equipamento bélico levou a que todo o aquartelamento acabasse aos tiros e à morteirada, tornando a pacata vila de Santa Cruz num autêntico palco de guerra. Apanhado desprevenido, atirei-me para o chão, as balas assobiando sobre a minha cabeça e assisti àquilo que parecia ser um autêntico fogo de artifício.
Deixei de ver as estrelas, habitualmente cintilando naquele céu negro e coberto de pontos luminosos formando constelações. O firmamento havia-se transformado num colorido intenso de vermelho e amarelo. Os rebentamentos consecutivos, o fumo e o forte odor da pólvora confundiam-me os sentidos. Rastejei até ao Posto de Rádio, dirigindo-me ao Centro de Cripto. Aí chegado, peguei no cinturão que suportava as cartucheiras, apertando-o à cintura, coloquei a patilha da G-3 na posição de tiro de rajada e voltei a sair, rastejando sempre. O desenfreado tiroteio parecia não ter fim. Não sabia exactamente o que se estava a passar, contudo, admiti que o inimigo estava determinado a entrar na vila ou talvez até já tivesse entrado. Então, desapertei com dificuldade todas as cartucheiras para a eventualidade de ter de substituir os carregadores vazios por outros carregados. A insistência daquele fogo – durou aproximadamente uma hora – levou-me mesmo a pensar na medida mais drástica a que eu me havia obrigado em tal situação. Rastejei novamente até ao interior do Centro de Cripto e abri o recipiente que continha cinco litros de petróleo. Ali fiquei à espera, pronto a derramá-lo, incendiando assim toda a papelada contida no seu interior. De repente, reconheçI a voz espavorida do doido Comandante da Companhia. Pediu desesperadamente ao radiotelegrafista que contactasse o Batalhão dizendo que estávamos a ser vítimas dum ataque surpresa e que deveriam enviar auxílio aéreo.
Ideia inconsequente e estúpida, pois era sabido que durante a noite o apoio aéreo era praticamente impossível.
Acto contínuo, o tiroteio começou a abrandar, ouvindo-se apenas alguns tiros dispersos. Até que se fez silêncio definitivamente. Chegou alguém ao Posto de Rádio dizendo ter tudo sido fruto dum mal-entendido.
No dia seguinte eram visíveis as marcas deixadas nas paredes das casas esburacadas. Um capitão doido varrido, coadjuvado por um segundo comandante e alferes asqueroso, teriam inevitavelmente de incutir nos seus subordinados aquela acção tão irresponsável. A eles foi-lhes movido o respectivo processo disciplinar. A nós foi-nos gravado para sempre na memória o horror dum episódio de guerra que, felizmente, não nos feriu materialmente.
Na noite do segundo Natal (1971) as lágrmas correram incontroladamente, enquanto me esforçava para deglutir a insípida refeição, mas depois acabei, tal como tantos outros camaradas, por brincar. Tanto eu como os restantes companheiros das Transmissões, animámo-nos uns aos outros e até fingimos, um por um, através do rádio, falar com o Pai Natal.

O "AMIGO" SUL-AFRICANO


Naquela tarde calma, monótona, silenciosamente preocupante, uns dormiam a sesta “viajando” em sonhos projectados a dez mil quilómetros de distância; outros liam jornais e revistas actualizando-se com informações que já faziam parte do passado e os restantes entretinham-se a passar o tempo, esperando pacientemente que os dias e as noites se sucedessem até ao riscar com uma cruz, naquele calendário tão comprido, o almejado último dia de comissão... De meia em meia hora o radio-telegrafista de serviço aumentava o som ao volume do rádio Racal para estabelecer a rotineira comunicação com o Batalhão e em todo o aquartelamento se conseguia distinguir o teor da breve conversa. Por vezes havia uma mensagem para receber ou para ser enviada. Então, o botão do potenciómetro era rodado por forma a aumentar ainda mais o volume e os outros selectores de ruído andavam dum lado para o outro até tornarem a comunicação mais límpida e perceptível tanto quanto possível. Depois seguia-se a mesma ladaínha : “Bravo Tango Alfa Oscar Foxtrot, Mike Delta Zulu India Golf...”
Inesperadamente, começou a ouvir-se ao longe o ruído grave e característico dum avião, que se reconheceu de imediato como sendo um bombardeiro, ruído que se foi progressivamente acentuando à medida que o ponto escuro no azul do céu ia adquirindo a forma dum pássaro gigantesco, até atingir o início da pista construída em terra batida. Aquela gigantesca ave metálica já era visivelmente reconhecível planando ruidosa com as suas asas estendidas e hirtas. Já sobre a pista, com uma impressionante e irrepeensível destreza, o seu piloto acrobata desconhecido “picou” naquela pequena extensão rectangular amarelada, baixou o trem de aterragem e acariciou com as rodas, levantando alguma poeira, a pista improvisada pela Engenharia, Quase de imediato, o trem de aterragem foi recolhido e, abruptamente, levantou o seu bico gordo ascendendo até à altitude inicial, prosseguindo viagem na direcção da África do Sul. Era efectivamente uma aeronave sul-africana. O gesto do seu piloto já se havia tornado num hábito arriscado de demonstração de respeito e afecto pelas tropas portuguesas. Era uma maneira singular de nos cumprimentar. Nós, na berma da pista, acenávamos com o que tínhamos à mão, retribuindo a saudação.
Os pilotos sul-africanos manifestavam sempre uma grande admiração pelos portugueses e não se cansavam de repetir que nós, os descendentes dos destemidos descobridores das caravelas “cascas de noz”, continuávamos a cometer a proeza de efectuarmos, por exemplo, voos nocturnos arriscados e de combatermos inusitadamente com máquinas presas por arames...
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MÃE NEGRA

( imagem extraída do blogue http://amateriadotempo.blogspot.com)
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Habituaram-nos a ver retratadas e filmadas, sobretudo através dos cromos das Raças Humanas e nos filmes da BBC Vida Selvagem e da National Geographic, as mulheres africanas negras sempre com as tetas ao léu. Nem sequer a palavra seios fazia parte da sua anatomia, pois eram consideradas como coisas ou animais.
Angola começou por ser colonizada por indivíduos cadastrados, na maioria considerados como assassinos perigosos ou presos políticos indesejáveis. Eram, assim, deportados para bem longe da Metrópole. O castigo, no entender dos governantes, aliava o útil ao agradável (?)
Aquele território imenso e fértil viria a tornar-se numa “ terra de cegos onde quem tem um olho é rei ”... O homem branco instalava-se, apoderando-se de grandes extensões de solo promissor e a mão-de-obra – gratuita – era “recrutada” através da lei da carabina e do temor das chibatadas com o negro preso ao tronco.
O homem branco entrava abusivamente numa qualquer sanzala, onde os nativos tinham a sua vida organizada segundo os seus costumes e as suas crenças. Já lá viviam e procriavam há séculos ou mesmo milénios, mas aos olhos dos brancos selvagens e, na maioria ignorantes, os negros eram desprovidos de alma. Assim, eram escolhidos aqueles negros que apresentassem uma compleição física mais evidente, tornando-se, então, numa força de trabalho riquíssima, descartável e facilmente substituível. As mulheres saudáveis também eram escolhidas para o trabalho e regalo sexual dos seus patrões. Mulheres, adolescentes e mesmo crianças.
Iam, assim, sendo arrancados pela força aos seus agregados familiares. Uns para o trabalho no seu território pátrio, outros acorrentados e negociados com os piratas que os amontoavam como animais nas embarcações que eles próprios impulsionavam remando, sob o chicote, até ao outro lado o oceano.
A História já nos revelou, através da Literatura ou da 7ª. Arte, as épocas e as condições em que tudo isto aconteceu. É a história da escravatura.
Contudo, muito pouco e duma forma muito tímida se tem homenageado o sofrimento secular das mulheres angolanas. Somente após o 25 de Abril a grande maioria do povo português pôde ouvir na voz de Rui Mingas, numa das suas canções de intervenção : “...e cabeças de pretos para os motores !!!.. “. Lembro-me também daquela tão bela quanto sugestiva canção em que o Poeta canta a mulher negra e termina dizendo ter sido analisada uma lágrima a uma negra a qual continha “água e cloreto de sódio”.
As mulheres portuguesas : avós, mães, irmãs ou namoradas sofreram desmesuradamente com a partida dos seus rapazes para a Guerra Colonial, sem dúvida ! Mas então, e as avós, mães, irmãs ou namoradas angolanas – que afinal já admitimos terem alma ?
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domingo, 29 de novembro de 2009

AMBRIZ

(Imagem extraída do blogue: angolabelazebelo)
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A simpática vila litoral de Ambriz fica situada no noroeste de Angola, a aproximadamente cento e cinquenta quilómetros de Luanda, sendo o percurso por terra totalmente em estrada asfaltada. Vila costeira e piscatória, tocada pelos membros inferiores do imenso mar que também banha o nosso país : o Oceano Atlântico.
À semelhança do que acontecia em todas as cidades e vilas do litoral daquele extenso território africano (Angola tem uma área superior em catorze vezes à de Portugal Continental) proliferavam os mosquitos e outros insectos incomodativos. Durante a noite, à volta das nossas camas, tornava-se imprescindível a utilização duma rede mosquiteira. Ao mínimo descuido lá entravam furtivamente um ou mais insectos picando-nos a pele e fazendo-nos perder a paciência. Afastados os teimosos insectos tornava-se, então, um imenso prazer adormecer e acordar com o som característico das ondas rebentando nos rochedos da costa, levando até ao interior da vila o odor salgado da maresia.
Abundava o marisco de quase toda a espécie. E eu interrogava-me : - Esta terra tão fértil, a qual permite mais do que uma colheita durante o ano e este mar tão rico em pescado (até em petróleo !) de que nos servem a nós, metropolitanos ? O marisco em Portugal é tão caro e inacessível à maioria dos portugueses ! As bananas e os ananazes, entre tanta outra fruta, apodrece aqui e lá em Lisboa – independentemente da classe média-alta – contam-se os trocos para oferecer uma bananinha a uma criança em desenvolvimento e o ananás, esse então, somente é adquirido, por alguns, quando recebem o Subsídio de Natal ? Nós, afinal estamos aqui realmente a defender aquilo que só a alguns ricalhaços pertence !...
Para além da Companhia de Artilharia onde me integrava, alí estavam aquartelados um Grupo de Carros de Combate pertencentes aos “Dragões”, os quais utilizavam umas viaturas blindadas designadas como “carro de combate Daimler”, as quais eram utilizadas no patrulhamento nocturno da vila e da zona que a delimitava, ou serviam de escolta às colunas militares e civis, servindo-lhes de protecção.
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Entretanto, o Regimento de Comandos decidiu instalar no Ambriz a sua Unidade, aproveitando as características geográficas daquela zona. Ali passaram aquelas tropas de elite a fazerem a sua especialização, com vista à obtenção das boinas vermelhas.
Eram ainda visíveis os restos duma sanzala, outrora construída à beira da vila, destruída totalmente às ordens dum capitão desiquilibrado psicologicamente, ou que se terá feito passar por tal. À semelhança do que já soubera haver acontecido noutras localidades. Nunca ninguém contabilizou o número das pessoas (negras) barbaramente chacinadas.
Em Quicua, por exemplo, conhecia-se um caso semelhante, mas aí, o número de vítimas era aproximadamente conhecido. A sanzala foi também completamente incendiada e os homens, mulheres e crianças foram soterrados numa vala comum. De seguida, as máquinas duma Companhia de Engenharia taparam, compactaram e terraplanaram um terreno com as dimensões dum pequeno campo de futebol. Colocadas as duas balizas improvisadas sabiamos estar a jogar sobre um campo de terra batida onde se encontravam (mal) sepultados cerca de quatrocentos corpos humanos.
O destino dos responsáveis por estas atrocidades mais ou menos conscientes (também conhecidas noutras colónias), era invariavelmente o mesmo : evacuados para o Hospital Militar em Luanda, entregues aos cuidados da Psiquiatria e dias mais tarde encaminhados para o Hospital Militar em Lisboa.

À porta do Centro de Cripto
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O MENINO SOBREDOTADO

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As crianças sobredotadas sempre existiram. O meu amigo e confidente furriel de Operações Especiais: Burnay, desde a mais tenra idade que se salientou pela suas capacidades intelectuais. Na idade escolar, geralmente só abria os livros para efectuar consultas. Não necessariamente para estudar. Captava as matérias durante as aulas e fixava-as na sua memória prodigiosa ; manifestava um sentido crítico muito pertinente, equilibrado e construtivo em relação às mais complexas questões. Possuía uma intuição surpreendente. Tinha uma mente brilhante e uma inteligência para além dos parâmetros normais. Os parentes e amigos auguravam-lhe um futuro promissor como detective, ou outro trabalho relacionado com a investigação. Um parente encaminhou-o para a polícia política. O Burnay, por ocasião da sua incorporação militar, já era inspector por mérito próprio. Não quis pedir espera para completar os estudos, ávido que estava em se alistar numa tropa de elite. Escolheu, assim, as Operações Especiais, em Lamego, onde concluiu o curso com distinção. Quis fazer a comissão de serviço prestando serviço como combatente. Foi mobilizado para Angola e integrado numa Companhia de Artilharia. Conheci-o no Leste já com cerca de vinte meses de comissão, faltando-lhe, portanto, apenas quatro para o regresso à Metrópole.
O meu apelido (Silva Pais) aliado ao facto de pertencer a uma arma e especialidade conotada com os Serviços Secretos, deixavam sempre na dúvida. tanto os comandantes como o restante pessoal que conheciam o nome do director-geral da polícia política, relativamente ao meu grau de parentesco com aquele que foi, sem dúvida, o homem mais poderoso e temido do Estado Novo. Quando mo perguntavam, a minha resposta era invariavelmente a mesma : - Sou efectivamente familiar mas nunca mantive com ele um relacionamento amigável ! Esta resposta deixava-os sempre na dúvida, levando-os a agirem para comigo sempre com uma razoável prudência. E isso permitiu-me uma grande margem de segurança nas conversas de esclarecimento político junto dos outros militares.
O director-geral da Polícia Internacional e Defesa do Estado - Direcção-Geral de Segurança (PIDE-DGS) foi um homem a quem muito poucas pessoas conheceram a cara, a obra e as suas capacidades intelectuais. O major Fernando Eduardo da Silva Pais, imediatamente após a revolução do 25 de Abril foi levado, e aí mantido prisioneiro, para o RE-1 (Regimento de Engenharia da Pontinha). Durante esse período fazia serviço nessa Unidade um dos meus melhores amigos da adolescência, o saudoso Antero Jorge. O Antero sempre havia sido um ferrenho anti-fascista. Não recordo quantas vezes tivemos de fugir e de escapar às balas traiçoeiras da Pide quando distribuíamos panfletos à população ou aos estudantes. E as fugas precipitadas quando nos encontrávamos, clandestinamente, a conversar e a ouvir cantar o Zeca Afonso ?
Ocorre-me, por exemplo, a exibição de um filme demasiado arrojado para a época e em cartaz no Cinema Rox, em Alvalade, protagonizado por uma nova e linda actriz chamada Maria Cabral. Se a memória não me atraiçoa, julgo que com ela contracenavam o actor José Viana, entre outros. “O Cerco” era o título do filme, daqueles chamados de vanguarda, rodado quase todo na zona de Peniche, com grandes planos muito demorados, irritantemente monótonos. Retratava a actuação da Pide com muita subtileza, pois a censura era impiedosa mas, por vezes, incrivelmente estúpida.
O Antero Jorge nem sequer podia ouvir pronunciar o meu apelido, tamanha era a raiva que nutria pelo que representava o nome do “homem” e a sua sinistra organização. Contudo, quando teve o ensejo de o ver aprisionado e “ferido de morte” quis conhecê-lo. Com ele entabulou conversa e ficou impressionado com a sua personalidade. Era dotado duma rara inteligência, vasta e abrangente cultura e duma educação extremamente refinada. Tinha um conhecimento enciclopédico da História. Por tal facto não suportava os comunistas e já prenunciava a sua inevitável decadência. O Antero contou-me haver ficado fascinado com aquela personalidade. Era, afinal, uma pessoa comum, em nada deixando transparecer um espírito monstruoso, que quase toda a gente, sem nunca sequer o haver conhecido, lhe atribuía.
O furriel Burnay, à medida que me ia conhecendo, ia também deixando cair a capa na qual furtivamente se escondia. Confidenciou-me os seus temores, mostrou-me as caixas de Lorenin, Valium e outros tranquilizantes e anti-depressivos que há algum tempo vinha tomando. Porquê ? Simplesmente porque lhe haviam sido dados a conhecer os mecanismos da polícia sinistra para a qual, tão jovem, o tinham empurrado. Não queria voltar a fazer parte daquela engrenagem mas era tarde demais. Demitir-se era como que assinar ele próprio a sua certidão de óbito. Fugir ? Para onde ? A ele já haviam sido cometidas missões que lhe pesavam na consciência. E, assim, debatendo-se com os fantasmas que o atormentavam e simultaneamente contra um destino vazio - sem que mais ninguém se desse conta - a sua comissão militar lá se ia encaminhando velozmente para o fim.
Certo dia, numa pequena aldeia transmontana, no concelho de Armamar, apareceram três indivíduos trajando gabardinas negras, chapéus de abas e óculos escuros à procura do humilde e iletrado Severino, o ferrador. Foram encontrá-lo na sua loja incrustada nos calhaus, preparando-se para extrair, já anestesiado localmente com uma pouca de aguardente, um dente a um conterrâneo. O pobre homem ficou para ali sentado e aterrorizado enquanto o “dentista” foi levado aos empurrões até ao carro que havia ficado estacionado lá mais abaixo, na estrada romana. Durante cerca de quinze dias nunca mais ninguém teve notícias dele. - Aquilo foi obra da Pide ! - dizia o senhor professor muito baixinho e timidamente. Mas sabia-se lá porquê ?
Em Lisboa, nas instalações da Rua António Maria Cardoso, o ferrador foi mantido incomunicável durante dez dias.
Por fim, levado para uma sala, amarrado a uma cadeira de madeira, dificilmente pôde reconhecer aqueles que o interrogaram, tão intensa era a luz do projector que lhe estava apontado à cara. Passados menos de cinco minutos o projector foi desligado e um dos inquisidores perguntou de forma áspera e voz alta e irritada : - Afinal o que é que este gajo está aqui a fazer ? Quem é que o mandou ?
No processo de captura constava que “...o indivíduo em causa representava uma séria ameaça à segurança nacional e aos deveres patrióticos, pois muito raramente comparecia à missa dominical e, quando esporadicamente o fazia, nunca depositava esmola na cesta por ocasião do peditório, considerando-se esta atitude como subversiva e própria dum potencial comunista”. Assinava esta informação o pároco da aldeia. O homem foi mandado embora e, envergonhado, deslocou-se a pé para casa duns familiares na Amadora e só teve coragem de voltar à terra depois de passados cinco dias.
Imensas foram as histórias que o furriel Burnay me contou. Tanta barbaridade ! Tanta injustiça ! Tanto terror !
Os tentáculos da Pide estendiam-se até aos recantos das nossas próprias casas. Familiares e amigos que eram denunciados como subversivos - comunistas ! Vizinhos e colegas de trabalho ! Em toda a parte existiam informadores. Imediatamente a seguir à Revolução de Abril formaram-se filas de espera à porta da Comissão de Extinção da PIDE-DGS, com o objectivo de se conseguir um Certificado, no qual constava explicitamente que determinado fulano nunca havia sido colaborador da polícia política.
Esses certificados encontravam-se por todo o lado : afixados nas lojas, supermercados, consultórios de advogados, de médicos, etc. para que os eventuais suspeitos pudessem livremente e fora de qualquer desconfiança continuarem a exercer as suas actividades.
Deixei de ver o furriel Burnay em meados do ano de 1970. Jamais soube se ele terá conseguido alcançar Abril de 1974.
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O AEROGRAMA

Foi, incontestavelmente, durante o longo período de duração da Guerra Colonial, o meio de comunicação que mais encheu as Estações de Correios, os porões dos aviões, os altos e espelhados edifícios do SPM (Serviço Postal Militar), as malas de cabedal e os braços dos carteiros, espalhando-se por cidades e pelas aldeias mais recônditas. O Aerograma foi escrito e lido à mesa do rico e do pobre. Passou por cadeias e hospitais. Aos civis era distribuído na cor azul e aos militares na cor amarela. O seu custo avulso era de $30 (três tostões). Correu mundo este papel fino e desdobrável portador de notícias, sentimentos, alegrias e tristezas. Para além das letras, muitas vezes esborratadas pelos salpicos inevitáveis das lágrimas descuidadas, neles eram inscritos e desenhados lindos poemas e figuras, as quais expressavam os mais diferentes estados de alma.
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Acabariam guardados em baús, gavetas ou malas, retendo sufocados, para a eternidade, memórias da verdadeira, da autêntica história vivida por toda uma população que sofreu na alma e na carne as dores intermináveis da guerra. Muitos deles escondiam por detrás das metáforas ou frases subentendidas coisas que se receava viessem a ser alvo da censura pidesca.
Quando sentia necessidade de transmitir a um amigo em Lisboa alguma mensagem de cariz mais arriscado, fazia-o, não através de aerograma, mas enviando-lhe uma carta com conteúdo normal e colocando-lhe um peso superior a vinte gramas, por forma a utilizar mais de um selo.
Por detrás dos selos a mensagem era escrita tipo telegrama ou como hoje se pratica com as abreviaturas utilizadas nos SMS dos telemóveis.
Os selos eram colados bem juntinhos um ao outro e a cola apenas lhes tocava no rebordo quadrangular ou rectangular (dependia do formato dos selos) por forma a que, ao serem arrancados, a mensagem, que havia sido escrita em letra minúscula e traço extremamente leve (para não se notar na face dos selos), chegasse às mãos do destinatário incólume. Era sabido que a PIDE, quando tinha desconfianças em relação a determinado indivíduo, violava-lhe a correspondência, fazendo-o também de forma aleatória a tantos outros.
Chamei-lhes : “...papéis de mel e fel, aerogramas...” porque veiculavam notícias alegres, mas também tristes. Recordo-me, por exemplo, daqueles camaradas que recebiam a notícia alegre do nascimento dum filho e que pagavam uma rodada de cerveja a toda a gente, mas a tristeza rapidamente se apoderava deles por saberem só virem a conhecer os seus filho(a)s muitos meses mais tarde, se o destino o permitisse.
Na “Torre do Tombo” de algumas casas portuguesas os Aerogramas permanecem desbotados e adormecidos. Por vezes, os saudosistas visitam-nos e ainda derramam sobre eles lágrimas frescas, quando lhes aflui à memória tempos de sofrimento indescritíveis.
Quem se lembra, ou já ouviu falar, hoje, do Aerograma ?
Os Aerogramas tinham o apoio do MNF (Movimento Nacional Feminino) e da TAP (transportadora aérea nacional). As “tias” do MNF eram, na generalidade, senhoras ligadas à UN (União Nacional), o partido único com assento na Assembleia Nacional (hoje Assembleia da República).
Quando o senhor general Costa Gomes tomou posse como Comandante-Chefe das Forças Armadas em Angola, teve conhecimento, entre muitos outros casos de abuso e corrupção, de que o tempo de espera para o regresso dos militares para a Metrópole, após terminada a sua já tão prolongada comissão de serviço, se arrastava por tempo indeterminado. A lista de espera para o tão desejado voo no Boeing da TAP, fretado pelas Forças Armadas, havia-se tornado num pesadelo para os militares.
Constou-se no interior da mata (este tipo de notícias é mais veloz que um caça da Força Aérea) que, certo dia, inopinadamente, o senhor general se deslocou ao Aeroporto de Luanda, querendo analisar as listas de passageiros. Estupefacto, deparou com uma situação, no mínimo inusitada e efectivamente abusiva. Dessas listas constavam os nomes das “tias”, das esposas de alguns comandantes, assim como gente do “jet-set” local. Deslocavam-se, “à borla”, ao “PUTO” (Metrópole) para fazerem as suas compras e tratarem as suas fartas e altas cabeleiras ou fazerem o “peeling” nos mais conceituados e caros salões de cabeleireiro ou institutos de beleza.
A partir daí, efectivamente, o tempo de espera para a deslocação de regresso dos militares alterou-se consideravelmente.
Por esta e outras atitudes que marcaram a presença daquele general, à porta da tenda compartilhada com os meus camaradas mais esclarecidos politicamente, o Carlos Barros colou a sua fotografia recortada do Jornal do Exèrcito.
A tomada de posse daquele general sem medo, embora prudente, gerou alguma polémica a nível político.
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Lembro-me que, curiosamente, em simultâneo chefiava o Agrupamento de Engenharia em Angola o senhor general Vasco Gonçalves. No leste de Angola, para os lados de Henrique de Carvalho, na província do Moxico, comandando uma Companhia de Engenharia na mata, comecei a conhecer e a respeitar um capitão, através dos relatos contidos na correspondência trocada com um furriel dessa Unidade, o Serra, amigo da adolescência. O capitão Pinto Soares era um oficial duma integridade e humanismo a toda a prova. Curiosamente, as três personalidades atrás descritas, no dia 25 de Abril de 1974 encontrei-as, através da televisão, na mesa do MFA (Movimento das Forças Armadas).
A ostentação da fotografia do senhor general Costa Gomes à porta da nossa tenda foi, de imediato, considerada como um acto de subtil insubordinação. Fomos aconselhados a retirá-la, com a ameaça de nos dispersarem por outras tendas.
A Revolução de Abril já se encontrava em gestação. Era imperioso que um grupo de homens (militares) honestos e receosos de Angola e Moçambique se tornarem Vietenames, actuarem. Na Guiné, já há muito vietenamizada, contava-se com o apoio do seu Comandante-Chefe : o senhor general Spínola.
A Revolução dos Cravos haveria de pôr um fim àqueles impressos de comunicação com sabor e odor a guerra : os Aerogramas.
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A tão esperada avioneta DO (Dornier) que nos trazia os alimentos e a correspondênia à 4ª.feira
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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

UM SALTO_________NO TEMPO

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UM NEGRO BUÉ DA FIXE

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Não querendo meter a foice em seara alheia, ou seja, escrever sobre política, lembrei-me, contudo, duma frase que desde há muitos anos retive na memória:
“A vida é um acto político” ! Durante a campanha eleitoral para as Legislativas 2002 ouvi com indignação, preocupação e tristeza apelos à discriminação racial... O texto que escolhi para a Janela Aberta deste mês faz parte dos meus últimos Contos da Guerra Colonial, situados obviamente já no período pós 25 de Abril de 1974.
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ACTO I (Único)
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Aquela soalheira manhã de Abril do ano de 1990 iluminava e aquecia um cenário deslumbrante : uma magnífica vivenda situada numa das zonas residenciais mais ricas de Lisboa. Um rapaz acompanhado da sua irmã, ambos mulatos, encontravam-se ali parados com o olhar fixo e esbugalhado à beira do enorme e imponente portão verde com lanças douradas a apontarem o céu tão azul, o qual se ia abrindo lenta e automaticamente pondo a descoberto, preparando-se para saírem, dois rapazes altos, louros e de olhos azuis, montados num motociclo de grande porte e alta cilindrada : uma Goldwing.
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Já em andamento iam apertando com destreza os capacetes de boa e reconhecida marca, complementando o reluzente vestuário preto de cabedal genuíno. Aqueles “meninos” detiveram repentinamente o motão antes de o transporem para o exterior da sua fortaleza relvada com piscina ao fundo. O que segurava o guiador e que aparentava ser o de mais idade apressou-se a retirar o capacete que havia enfiado um minuto antes e dirigiu-se verbal e agressivamente para aquele casal de mulatos que não arredavam pé.
Menino rico : - Oh escarumas do caraças, andam aqui no gamanço ? Vá, bazem daqui p’ra fora ! Ou querem levar um balázio na mona ? Fiz-me entender ?
Mulato : - Calma, meu ! Estás a precipitar-te ! Podemos ser “blacks” mas somos pessoas bué da fixes e estamos aqui numa boa ! Estávamos apenas a apreciar este espectáculo de vivenda, mano !
Menino rico : - Mano o diabo que te carregue !
Mulato : - Esta bacana aqui é minha irmã, meu ! É a Laurinha ! Só viemos aqui p’ra conhecer o palácio do senhor doutor juíz Junqueira. Esta mansão não é do doutor Junqueira ?
Menino rico : - Limpa a merda da tua bocarra quando pronunciares o nome do meu pai, ok ? Mas afinal que sabes tu acerca do meu cota ? Qual é a tua, meu ?
Entretanto, um indivíduo quarentão, impecavelmente “arreado” de fato e gravata e mala preta na mão esquerda entrou e sentou-se ao volante dum metalizado e potente Volvo. Ao aproximar-se do portão travou violentamente, saindo apressado da esplendorosa viatura e dirigindo-se para a frente da mota, como que tentando proteger as suas crias irrequietas e mal-educadas. Manifestava algum nervosismo e enquanto ia esticando os punhos da camisa e deixando vislumbrar os botões de prata artisticamente trabalhados foi-se aquietando, acabando por ficar estático...
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Senhor doutor : - Filhos, o que é que se passa aqui ? Qual o motivo da discussão ?
Menino rico : - Ora, velhote, são estes blacks das barracas que encontrámos aqui ao portão, sabe-se lá com que intenções !...
Senhor doutor : - Meninos, por favor não molestem essas pobres criaturas !
O senhor doutor , entretanto, deu alguns passos decididos em direcção ao portão, parou repentinamente, fixou o rapaz mulato, inclinou a cabeça para a esquerda, franziu o sobrolho e com a ponta dos dedos da mão direita coçou demoradamente a cabeça.
Senhor doutor : - Diz-me, rapaz, tu por acaso és angolano ? Caramba !... Ia jurar que...sim, a tua fisionomia não me é de todo estranha !
Menino rico : - Paizinho, não dês confiança a essa gente. Podem ser perigosos. Se calhar são alguém que já julgaste e condenaste...Cuidado ! O melhor é chamar a bófia. Não vês que os atrevidos não desandam ?
Senhor doutor : - Calma, calma, filho ! Deixa isto comigo !
O rapaz mulato tirou calmamente do bolso do blusão um maço de cigarros e um isqueiro ZIPPO e, numa atitude premeditada de demonstração de delicadeza, pediu, com um gesto, autorização para fumar, ao que o seu interlocutor acenou positivamente. O rapaz soprou o fumo demoradamente para o alto enquanto o juíz, petrificado, foi deslizando o olhar ora para o mulato ora para a sua irmã.
Mulato : - O senhor doutor juíz Junqueira era alferes...Lembra-se de Sanza Pombo ?...Recorda-se duma mulher negra muito linda chamada Laura?
Senhor doutor : - Tu, rapaz, és natural de Angola ? De Sanza Pombo ? Ai meu Deus, é isso...é isso...Mas afinal que sabes tu da Laura ? Que sabes tu a meu respeito ? Tu és parecido...pois...tão parecido ! Meu Deus, não me digas que...
Mulata : - Força, João, acaba lá com esta treta ! Vá lá, João Junqueira, diz a verdade ao senhor ! Que tens tu a perder ? Afinal, só o queres conhecer, não vens pedir népia ao ricalhaço !
Mulato : - Sim, foi-me dado o seu nome. A minha mãe Laura morreu de parto na sua segunda gestação : era uma menina. É esta aqui, a Laurinha ! Eu fui o primeiro...Não quero nada seu, não ! Tenho noção da realidade e nunca sonhei “sujar” a piscina desses aí que quer queiram quer não são meus irmãos. Só quis conhecer, ao fim de muitos anos, aquele que me disseram ter sido o grande amor de Laura. Eu...eu afinal sou apenas um filho escuro daquela maldita guerra, não é, doutor ?
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O rapaz mulato agarrou firmemente no braço da irmã, puxando-a para si, enquanto que com a outra mão apanhou do chão, onde haviam permanecido encostados ao muro, dois capacetes muito usados e impressionantemente riscados. Dirigiram-se os dois para uma motorizada sem guarda-lamas : uma DT 50 que havia ficado a uns metros de distância, inclinada para o passeio e sustentada nele apenas com o pousa-pés direito. Enquanto se foram afastando, o rapaz mulato, com a base do capacete apoiada na testa, virou-se de repente para trás, apontou o dedo indicador direito ao menino rico e num tom de voz elevado e embargado, disse-lhe : - Lembra-te sempre, “betinho”, preto não é ladrão, por vezes até pode mesmo ser irmão !!!
Aquela motorizada pegou de empurrão, o punho do acelerador foi bruscamente rodado até ao empanque, a “manete” da embraiagem largada repentinamente, dando origem a um brusco, barulhento e aterrador arranque, numa derrapagem em semi-círculo, seguido de um “cavalinho”, a caminho dum qualquer bairro de renda social algures nos subúrbios da capital, outrora latifúndio suburbano e hoje depósito disperso dos filhos incógnitos daquela prolongada guerra...
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terça-feira, 24 de novembro de 2009

A MOBILIZAÇÃO

Encontrava-me a prestar serviço, já como Operador de Cripto, na Escola Prática de Engenharia, em Tancos. O Centro de Cripto ficava situado no mato, muito perto da Estação de Caminhos de Ferro de Almourol. Decorria o mês de Dezembro de 1970 e eu rezava a todos os meus santinhos para que, a ser mobilizado, isso apenas viesse a acontecer a partir do mês de Janeiro de 1971. A gastrite e todas as outras disfunções originadas pela certeza da mobilização (Angola, Guiné ou Moçambique ?), agravaram-se ao tomar conhecimento da data inadiável do embarque. Dever-me-ia apresentar no Regimento de Artilharia Pesada (RAP-2), em Vila Nova de Gaia, a fim de receber toda a documentação tida como necessária ao embarque para Angola, como militar de recompletamento. No dia 21 de Dezembro (faltavam três dias para o Natal) entrei naquela monstruosa mas bela máquina navegante chamada Príncipe Perfeito.
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Chegado a Luanda, ao fim de oito dias de baloiçar incessante, fui conduzido até ao Regimento de Infantaria 20, onde se encontravam instalados os militares na minha situação (CMR 113). Daí segui para Nova Lisboa, a linda capital do Huambo. Dois dias depois viajei de comboio até ao Luso (capital do Moxico) onde comecei a ter a percepção de me encontrar já num ambiente bélico. Aí aguardei pelo chamado MVL (Movimento Logístico) e lá parti, na caixa de carga dum camião civil carregado de mantimentos e refrigerantes, entre tantos outros, escoltados por várias viaturas militares, a maior parte das quais carregando sacos de areia, pois o percurso a efectuar era de cento e vinte quilómetros e duração de três dias, sempre em picadas mais ou menos sulcadas e eventualmente minadas.
Finalmente em Cangamba, onde se encontrava aquele que ficou conhecido como Batalhão Ás de Espadas, dirigi-me ao sargento-de-dia da Companhia Independente que me havia requisitado. Alguns dias depois haveriamos de montar as tendas junto a uma sanzala numa localidade um pouco mais ao sul chamada Cangombe.
Já não me recordo qual deles : o Bila Noba (de Gaia), o Ermesinde, o Rio Tinto ou o Pasteleira, quando soube que eu era natural de Lisboa, deu-me uma forte palmada no ombro, perguntando-me : - Olha lá, oh alfacinha, sabes qual é a melhor coisa que há em Lisboa ? É Sant’ Apolónia, porque de lá é que abala o comboio p’ ra Campanhã, carago !
Pude constatar, entre 10 de Janeiro e 5 de Outubro de 1971, como foi fácil fazer amigos entre aqueles rapazes lá das bandas da cidade “Inbicta”. Não costumo ter o hábito de dizer que tenho saudades do passado, mas a verdade é que jamais deixei de pensar naqueles camaradas da CART 2574 – os “Bravos e Sempre Leais” – sobretudo nos que lá tombaram em combate e naqueles que feridos gravemente foram obrigatoriamente evacuados para a Metrópole. Não poderia deixar de prestar, neste breve conto, a minha homenagem àqueles que lá deram a vida pela "Pátria" e cujo nome está dignamente inscrito na enorme lápide da Praça do Império em Lisboa : o Ângelo R. Sousa, o Aníbal A. Ascenção e o Manuel Ferreira.
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