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Não deixe de ler o Conto: "O Turra Mussolé", publicado no dia 7 de Setembro de 2008, o qual, ao cabo de 34 anos da chamada "Revolução dos Cravos" sofreu CENSURA por parte do Ministério da Defesa Nacional, levando-me a deixar de escrever no Jornal da APOIAR - Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vítimas de Stresse de Guerra.

"MENINA DOS OLHOS TRISTES" CANTADO POR ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA

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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

UMA MINA POR 500$00


O Furriel Diogo era um indivíduo de quem se podia dizer ser uma jóia de rapaz. Havia tirado o curso em Lamego e usava sempre, garbosamente, quer na manga da camisa da farda de trabalho quer na do fato camuflado uma chapinha dourada com letras gravadas a negro onde se lia : Operações Especiais. Teimava em dizer que era tropa de elite. Aliás, várias especialidades arrogavam-se como tal. No mato assistia-se a uma disputa verbal enorme entre as tropas consideradas de elite, não passando, contudo, desse estádio de discussão. A solidariedade era muito necessária. Já na cidade o mesmo não acontecia, infelizmente. Na generalidade os homens que integravam as chamadas tropas especiais tinham plena consciência do seu valor e faziam questão em adoptarem um comportamento civilizado, exemplar. Mas, quando se encontravam nas cidades, longe dos combates, em tempos breves de lazer, o álcool tornava-se no pior dos inimigos. Então, assistia-se a brigas entre elementos de diferentes grupos de elite, algumas das quais acabavam por transformar rapidamente um qualquer estabelecimento, sobretudo cafés e cervejarias, num monte de destroços. Faziam parte da lista de tropas de elite, entre outras e por ordem alfabética : Comandos, Comandos Africanos, Flechas, Fuzileiros, Operações Especiais, Paraquedistas e Rangers . Todos eles haviam chafurdado no esterco, atravessado esgotos com a merda a tocar-lhes na boca, matavam galinhas à dentada, passavam por exercícios de carácter psicológico – se a isso se podem chamar exercícios – e um treino físico e de preparação para combate que os viria a tornar autênticas máquinas de guerra. Os instrutores não se cansavam de repetir, sempre que os obrigavam a grandes esforços, que “suor derramado na instrução era sangue poupado em combate”...
O Comando oferecia mil ou quinhentos escudos a quem tivesse a audácia de desmontar, respectivamente, uma mina anti-carro ou anti-pessoal.
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Quando fui obrigado a efectuar a primeira viagem naquele solo arenoso angolano senti medo. Mas não dá absolutamente jeito nenhum a ninguém ter medo a toda a hora, todos os dias e durante, pelo menos, vinte e quatro meses. Depois, também já não resultava adoptar as aprendidas medidas de precaução. Os aparelhos utilizados haviam sido estudados para detectarem metais no subsolo e as modernas minas eram construídas totalmente com matéria plástica. As viaturas que seguiam na dianteira da coluna militar ou civil eram carregadas de sacos contendo areia. Assim, a roda pisava uma mina mas apenas se danificava aquele rodado que a havia despoletado.
Mas as modernas minas, para além de serem fabricadas com o maldito plástico possuíam uma espécie de carreto programável que as fazia explodir à passagem da viatura que o inimigo pretendia atingir. Apenas alguns civis e os inspectores da PIDE-DGS sabiam onde elas se encontravam para se deslocarem sem correrem riscos. Porquê ? Aquela guerra estava cheia de porquês...
Mas para este obtive uma resposta quando um civil residente (explorava uma roça de café) ofereceu-me boleia no seu jeep mas impondo-me como condição fazer-me transportar desfardado (à civil) e completamente desarmado.
A estes brancos, nascidos em África ou a viverem lá desde há muitos anos haviam classificado os governantes, com grande carga pejorativa : brancos de segunda.
E assim a longa viagem por aquelas poeirentas picadas de Angola fez-se sem qualquer receio de emboscada ou mina, dependendo o sucesso da viagem da atenção do fazendeiro que ia sempre consultando o seu livrinho (!)
O furriel Diogo, contrariando a vontade dos outros camaradas, quis desmontar aquela mina anti-pessoal encontrada por mero acaso numa picada a poucos metros do aquartelamento. Munido apenas da faca-de-mato, apertou-a entre os dentes, afastou os joelhos ao mesmo tempo que, muito devagar, ia flectindo as pernas até tocar o solo. Toda a Companhia assistia ao longe, fazendo-se um completo silêncio circense, pois o artista encontrava-se pronto e só faltava o rufar dos tambores para “aliviar” toda aquela tensão.
Todos nós tínhamos consciência de que aquilo, embora parecendo, não era de modo algum uma cena de circo. Ali estava um rapaz, amigo da maior parte dos espectadores, em cima dum engenho que dum momento para o outro o poderia transformar em pedaços, ou então, se aquela operação de alto risco fosse bem sucedida o Furriel de Operações Especiais não só ganharia os quinhentos escudos como seria eternamente considerado um herói.
O Diogo benzeu-se e fez uma pausa, supostamente numa atitude de concentração, como exigem os grandes momentos. Depois pegou na faca e começou a retirar cuidadosamente a terra que cobria o engenho.
Aquela mina, depois de localizada, poder-se-ia fazer explodir, não causando danos a ninguém. Mas o Diogo lá estava ajoelhado, era tudo uma questão de honra, pois ele não precisava dos quinhentos escudos para nada. Ou melhor, a maior parte dos seus camaradas oferecer-lhe-iam de boa vontade quinhentos ou mais escudos para que o rebentamento se efectuasse à distância.
Cá de longe já conseguíamos ver o aspecto daquela coisa escura e arredondada. Já se encontrava completamente descoberta, pronta a ser desactivada. A tensão era cada vez maior. De repente um sargento lembrou-se de que era mais seguro, naquela fase da desmontagem, ficarmos agachados.
Assim fizemos. Ao mesmo tempo ouviu-se uma explosão, o chão tremeu, o ar encheu-se de fumo e poeira e ninguém, para além dos valentes sapadores e o cabo enfermeiro, teve coragem para ver o estado em que ficou o “herói” nem apanhar os seus pedaços espalhados um pouco por todo o lado.

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7 comentários:

FURRIEL DIAS disse...

Paz á sua alma,fui antigo combatente estive em Moçambique Mueda ,tenho o curso de minas e armadilhas tirado em Tancos e rebentei muitas minas e também tive de rebentar o paiol da nossa Companhia.
Aprendi no curso acima referido,que
só se levantava minas e,posteriormente o seu desarmamento em casos absolutamente necessários por exemplo numa ponte,se não podiamos ficar sem acessos.
Para desanuviar digo o seguinte:UM ESPECIALISTA EM MINAS E ARMADILHAS PODE SE ENGANAR TRES VEZES, A PRIMEIRA A UNICA E A ULTIMA.
CUMPRIMENTOS.
FURRIEL MIL.DIAS
C.CAÇ.4153 MOÇAMBIQUE (NANCATARI)MUEDA

Antonio Neto disse...

Um abraço aos Speedys de Nancatari. Fui furriel miliciano na 2ª CCaç do BCaç 4812 aquartelado em Nairoto de Out73 a Nov74, e estive no destacamento de Muirite de Fev a Mai74. Encontravamo-nos quando iam a Muirite buscar as colunas para Mueda, e no regresso. Passei por Nancatari numa escolta que fiz desde Nairoto até Mueda, em Dez73

FURRIEL DIAS disse...

Olá camarada de armas António Neto tudo bem?

Fiquei muito contente por ao fim de estes anos todos,encontrar alguem que esteve em Muirite ,local que eu tambem conheci e que era um grande buraco,pois não tinha sequer arame farpado e era composto só por um pelotão de homens e se não me engano a maioria eram Açorianos.

O meu endereço de email ,no caso de querer entrar em contacto é o seguinte:joaquimds55@gmail.com

Um feliz Natal e um Bom ano 2011.para si e para todos os seus familiares.

Um abraço

Dias

Fernando disse...

Também eu fui Furriel Miliciano na 2ªCCAÇ do BCAÇ4812, por rendição do falecido Furriel Mecânico Beldroega Courela. Estive no Nairoto de Março a Novembro 1974. Também eu fui a Muirite onde tivemos muitos problemas, era um grande buraco realmente.
Um abraço ao António Neto e a todos os restantes ex-camaradas.
Fernando Lopes

António disse...

Um abraço ao Fernando, o furriel mecânico que veio substituir o Beldroega, e a quem no fim da comissão da 2ª C.Caç do B.Caç 4812sobrava um Unimog, não é assim?
É agradável saber de quem está vivo. Deves ter uma foto numa patuscada que fizemos na margem do rio Messalo, à sombra daquela mangueira enorme que lá havia,com o pessoal da condução e mecânicos; também estou nessa foto, tou sentado, de garrafa de cerveja na mão, e tu estás em pé.
Longa vida, Fernando

António disse...

Fernando, se queres relembrar o pessoal da condução e mecânica, vai ao facebook e procura pelo nome de Jose Lopes: estão lá várias fotos, entre elas aquela de que te falei,à sombra da mangueira. O José Lopes era condutor e tem o email lopes_cedros@hotmail.com, e eu tenho o email thomnecas@gmail.com
Um abraço
A. Neto

António disse...

Camarada Dias, vi que os "Speedys" vão fazer um almoço de convívio, e aproveito para pedir que lhes transmita um abraço do pessoal da 2ª CCaç do BCaç 4812/73, de Nairoto/Muirite.

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Já lá vai o tempo do "Currículo"... Espiritualista (estudioso, mas não fanático). Voluntariado