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Não deixe de ler o Conto: "O Turra Mussolé", publicado no dia 7 de Setembro de 2008, o qual, ao cabo de 34 anos da chamada "Revolução dos Cravos" sofreu CENSURA por parte do Ministério da Defesa Nacional, levando-me a deixar de escrever no Jornal da APOIAR - Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vítimas de Stresse de Guerra.

"MENINA DOS OLHOS TRISTES" CANTADO POR ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA

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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O NESCAFÉ DO SENHOR COMANDANTE




A minha (nossa) principal e mais agradável refeição diária era efectiva e invariavelmente o pequeno almoço, servido cerca das sete horas da manhã.
Afastava as abas de lona da tenda de campanha verde com tecto duplo, olhava na direcção da cozinha improvisada, não conseguindo, porém, dalí, a uma distância de mais ou menos quarenta metros, visualizá-la, pois o cacimbo (espécie de nevoeiro) formado ao longo da noite fria, ainda se mantinha bastante denso. Somente por volta das nove, dez horas o sol, já vigoroso, o penetrava, evaporando-o. Na cozinha uma enorme fumaça se difundia. No solo havia sido aberta uma fossa pouco profunda onde era colocada a lenha e, a cobri-la, uma gigantesca grelha de varão de aço. O pão era amassado e confeccionado pelo cozinheiro, ajudado por outros camaradas. Depois, distribuído a cada um de nós um “casqueiro” quente e fofo, tipo pão de Mafra, o qual, após cortado em duas partes colocávamos com uma forquilha por cima daquele braseiro, voltando-o de vez em quando, por forma a torrá-lo mais ou menos, consoante as preferências individuais de cada militar matinalmente esfomeados. Barrava-se com manteiga ou margarina, geralmente apenas numa das metades, pois a parte sobrante - tal como fazem os cães com os ossos - era guardada para ir enganando o estômago ao longo do dia e, por vezes, da noite.
Embora o Estado estipulasse uma quantidade diária de alimentos e bebidas tidas como necessárias à nutrição dos militares, na prática os géneros alimentícios : carne, peixe, farinha, açucar, azeite, óleo, vinho, café, leite, etc., transportados em sacas, barris ou outro tipo de recipientes sofriam, ao longo do seu itinerário, mais de uma violação ou mesmo desvios de percurso. Depois, eram comercializados pelos tais indivíduos sem escrúpulos, os quais “encheram os bolsos à pala daquela guerra”.
Esparguete com atum chegaram a estar para nós, durante semanas, como couves com feijão para o povo trabalhador ribatejano. O café da manhã era aguado, o mesmo acontecendo com o leite, o azeite e até com o vinho. Assim, a comida tinha muito pouco tempero. Por vezes, quando se verificava a falta de água, as marmitas chegavam a ser “limpas”, após cada refeição, com um bocado de pão, transformando-se a nossa sobremesa num gracejar amargurado ao dizermos uns para os outros “que assim sempre se aproveitava uma nesga de gordura para acrescentar à refeição seguinte...” A arca do bar dos cabos e soldados estava a abarrotar de comida pertencente à messe dos oficiais, sargentos e furrieis. O aquartelamento situava-se em Quicua, destacamento adstrito ao Batalhão de Sanza Pombo, perto da fronteira com a República do Congo. Na messe as refeições eram sempre servidas com toalha de mesa, guardanapos, pratos de porcelana e talheres de peixe, carne e até de sobremesa. Refeições para as quais eram escalados um ou mais ordenanças (criados), os quais os serviam à mesa, faziam as camas, enfim, todo o trabalho “doméstico”.
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QUIAGE (nos DEMBOS)

Cozinha e refeitório imundos onde eram confeccionadas as refeições e depois servidas a cabos e soldados
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Certa noite, um furriel cúmplice do “nosso grupo”, confidenciou-nos que nas trazeiras da messe se encontravam enterrados muitos, muitos quilos de frangos. E foi muito, muito triste a sua confirmação. Já havíamos tentado dois levantamentos de rancho (recusa em comer durante o momento destinado às refeições) mas o chicote do oficial-de-dia e as ameaças do capitão nunca haviam permitido que tal atitude, considerada como sublevação, chegasse ao conhecimento do comandante do Batalhão.
O senhor comandante, um tenente-coronel de estatura pequena e frágil mas com carácter rijo e determinado era muito exigente com as tropas sob o seu comando, contudo, jamais admitia que lhes faltasse o que quer que fosse para o seu bem-estar. Tive conhecimento, já no século XXI, através dum Oficial com quem ele privou na vila de Sanza Pombo (que faz o favor de ser meu amigo há muitos anos : o Sr. Dr. Ruy Sommer D’ Andrade) do seu falecimento num acidente de viação.
Um dos camaradas do “nosso grupo”, o Carlos Barros, um rapaz de trato fino e cultura-médio-superior, era habitualmente convidado para servir o senhor comandante por ocasião das suas visitas ao destacamento.
Aquele tenente-coronel nunca dispensava, após as refeições, um café instantâneo. Um compartimento do armário da messe servia de “sacrário” onde repousava religiosamente à sua espera um frasco de café solúvel de cem gramas da marca Nescafé, pois o senhor comandante era viciado naquela bebida estimulante.
Então surgiu uma ideia tão brilhante quanto arrojada. Preparámos um plano de acção que se pretendia radical, dispostos a arriscar tudo por tudo e a sofrer as imprevisíveis consequências. Quando fosse chegado o momento de servir o cafezinho ao senhor tenente-coronel o frasco havia miraculosamente sumido. O Carlos Barros teve a inusitada audácia para praticar tamanha sabotagem psicológica, convertendo a sua acção numa resolução definitiva. Já visivelmente inquieto com a demora, à qual não estava habituado, passou rapidamente para uma postura irrequieta e agressiva :
- Então, Barros, esqueceste o meu café ?
Adoptando com algum esforço um ar severo mas determinado na prossecução do delicado plano, cruzou as mãos à frente da fivela do cinturão e respondeu com alguma tremura na voz : - Saiba V. Exª. , meu comandante, que neste destacamento não falta apenas o Nescafé... Tanto no nosso refeitório como na nossa cantina tem vindo a faltar tudo !
Foi como se uma tremenda, repentina e incontrolável explosão tivesse ocorrido em Quicua. O senhor comandante, pessoa inteligente e com muitos anos de carreira, não permitiu que ninguém se pronunciasse. Pensou, durante um breve instante, e pediu delicadamente ao Barros que se retirasse. Apurou responsabilidades e accionou acções disciplinares . Ainda assim, o comandante da Companhia, um capitão com tantos anos de serviço como de malandrice e má-educação, no dia seguinte mandou transmitir para o Batalhão uma mensagem “em claro” (via rádio, não cifrada, do tipo telefonema) solicitando o reabastecimento da Unidade com um autêntico rol provocatório de alimentos caros, bebidas e iguarias, entre as quais se destacavam :
- 100 garrafas de champanhe
- 500 litros de vinho branco e tinto da Bairrada
- 100 quilogramas de lagostas, gambas, camarão, etc. A partir daí a alimentação melhorou, mas jamais tivemos conhecimento do desfecho relativamente ao contencioso entre comandos, em virtude de alguns dias mais tarde a Companhia de Engenharia onde me integrava, se haver deslocado para o Agrupamento de Engenharia em Luanda, sendo, à época, seu comandante um homem íntegro e bom que nunca pactuou com uma imensidão de vermes corruptos.
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Já lá vai o tempo do "Currículo"... Espiritualista (estudioso, mas não fanático). Voluntariado