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Não deixe de ler o Conto: "O Turra Mussolé", publicado no dia 7 de Setembro de 2008, o qual, ao cabo de 34 anos da chamada "Revolução dos Cravos" sofreu CENSURA por parte do Ministério da Defesa Nacional, levando-me a deixar de escrever no Jornal da APOIAR - Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vítimas de Stresse de Guerra.

"MENINA DOS OLHOS TRISTES" CANTADO POR ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA

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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

EXTRACTO DOS MEUS CONTOS: "HISTÓRIA DUM CARTEIRO À MODA ANTIGA DURANTE A GUERRA COLONIAL"

Este texto é uma súmula de histórias mais ou menos longas e que relatam uma parte da vida profissional do meu saudoso pai como Carteiro. Curiosamente, durante a minha especialização militar, estudei uma disciplina relacionada com esta actividade muito complexa (SPM-Serviço Postal Militar).
Após o 25 de Abril quem era interpelado na rua por um Carteiro retraía-se quase sempre em virtude do seu difícil reconhecimento. De cabelos grandes e despenteados, barba desgrenhada, calças de ganga e calçado de ténis sujos e rotos. Apenas o monte de cartas na mão nos permitia a sua identificação. Outrora o Carteiro tinha a obrigatoriedade de apresentar-se à sociedade tal como os restantes funcionários públicos, sobretudo fardados, ou seja : bonito por fora, não importando a desarrumação interior... Assim, o cabelo deveria estar bem aparado, a barba muito bem escanhoada, as unhas dos dedos das mãos curtas e limpas, os sapatos pretos muito bem engraxados, os metais do boné, lapela do casaco e botões areados até reluzirem e um sorriso sempre patente para oferecer aos “destinatários”.
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Lá vem o Carteiro ! Lá vem o Sr. Mário !

Ouvi-lo chegar agora
Já não tem o mesmo sabor
Nem dá p’ ra haver amizade

Chega lesto e vai embora
Sobre rodas e a motor
Perdeu de todo a vaidade
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Após muitos anos – nunca se sabia quantos – com a categoria de Carteiro de Reserva, pois enquanto nessa condição todo o tipo de serviço tinha de ser cumprido e o giro (zona de distribuição da correspondência) nunca era certo. Se quisesse progredir na carreira teria de submeter-se a um curso que o obrigava a muito trabalho e estudo para depois enfrentar um concurso e a consequente, embora nem sempre isenta, avaliação profissional. O meu pai lá foi promovido a Carteiro de 3ª, alguns anos mais tarde a 2ª, até atingir a categoria de 1ª, acabando reformado com uma que nem sequer chegou a exercer : a de Monitor.
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Farda/Fardo

Aquela farda envergando
E grande honra tendo nela
A vida-fardo carregando
E sempre achando-a tão bela !
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Foi um percurso muito duro, repleto de histórias às quais os mais novos não têm acesso e quando têm dificilmente compreendem e nem sequer acreditam.
O país estava embrenhado na Guerra Colonial e os mancebos eram recrutados por todo o lado, independentemente das suas capacidades psíquicas ou físicas.
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As relações sociais num aglomerado populacional predominantemente rural não eram, como ainda não o são, obviamente, iguais aquelas dos condomínios convencionais nas grandes cidades, nos quais mesmo que os prédios só possuam um elevador a servir dois ou três pisos, os condóminos quando se encontram a viajar nele apertados, pele contra pele, não se cumprimentam, ignorando-se entre si enquanto aquele caixote sobe ou desce, uns esforçando-se por olharem para o tecto, outros baloiçando as chaves do carro enquanto vão mirando a barguilha, outros, os “agarradinhos do celular”, enviando ou procurando mensagens e outros, até, aproveitando despudoradamente para coçarem os tomates. Na maior parte das vezes nem sequer manifestando uma cortesia, mesmo que hipócrita, de segurarem a porta quando o vizinho ou a vizinha vão a entrar ou a sair... Curiosamente podem encontrar-se algumas destas pessoas na missa dominical cumprimentando-se efusivamente, “saudando-se na paz do Senhor”, com muita fé (...)
O Carteiro, por demais carregado com tanta notícia de riso e choro, surgia cada vez mais perto em virtude das suas passadas sempre muito largas, enfrentando finalmente o primeiro aglomerado ruidoso e inquieto : os seus destinatários que diariamente ali, sensivelmente no mesmo horário, aguardavam notícias dos seus netos, filhos, maridos, pais, namorados ou simplesmente vizinhos e amigos. Aqueles aerogramas, cartas ou postais haviam sido escritos há pelo menos dois dias, as notícias que relatavam poderiam, entretanto, de alguma maneira, haver sido drasticamente alteradas. Mas não ! Quem se atreveria a pensar assim ? O ritual da abertura da correspondência era sempre o mesmo : rasgava-se apressadamente o aerograma ou a carta como se do seu interior se esperasse ver saltar milagrosamente, de braços bem abertos, o ente querido.
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Carteiro e Conselheiro

Quase todas as famílias portuguesas
Tinham no Carteiro um elo muito amigo
Que os ligava da Guiné até Timor

Trazia cartas / ”aeros” d’ incertezas
- O seu menino não corre qualquer perigo !
(Sorria sempre escondendo a sua dor...)
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Àquele Carteiro foram também levados para a guerra dois dos seus três filhos. Com o coração bem apertado pelas amarras da angústia, lá ia distribuindo as notícias, por vezes com a dificuldade dos atropelos das pequenas multidões ansiosas, mas mantendo sempre patente no seu rosto suado um sorriso autêntico enquanto da sua veia poética iam brotando simultaneamente palavras de ânimo, esperança, fé, embora educadamente fosse avançando sempre, porque ainda havia muita correspondência para distribuir e também desejoso estava ele de chegar a casa e saber dos seus...




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Já lá vai o tempo do "Currículo"... Espiritualista (estudioso, mas não fanático). Voluntariado