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Não deixe de ler o Conto: "O Turra Mussolé", publicado no dia 7 de Setembro de 2008, o qual, ao cabo de 34 anos da chamada "Revolução dos Cravos" sofreu CENSURA por parte do Ministério da Defesa Nacional, levando-me a deixar de escrever no Jornal da APOIAR - Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vítimas de Stresse de Guerra.

"MENINA DOS OLHOS TRISTES" CANTADO POR ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

UM SALTO_________NO TEMPO

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UM NEGRO BUÉ DA FIXE

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Não querendo meter a foice em seara alheia, ou seja, escrever sobre política, lembrei-me, contudo, duma frase que desde há muitos anos retive na memória:
“A vida é um acto político” ! Durante a campanha eleitoral para as Legislativas 2002 ouvi com indignação, preocupação e tristeza apelos à discriminação racial... O texto que escolhi para a Janela Aberta deste mês faz parte dos meus últimos Contos da Guerra Colonial, situados obviamente já no período pós 25 de Abril de 1974.
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ACTO I (Único)
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Aquela soalheira manhã de Abril do ano de 1990 iluminava e aquecia um cenário deslumbrante : uma magnífica vivenda situada numa das zonas residenciais mais ricas de Lisboa. Um rapaz acompanhado da sua irmã, ambos mulatos, encontravam-se ali parados com o olhar fixo e esbugalhado à beira do enorme e imponente portão verde com lanças douradas a apontarem o céu tão azul, o qual se ia abrindo lenta e automaticamente pondo a descoberto, preparando-se para saírem, dois rapazes altos, louros e de olhos azuis, montados num motociclo de grande porte e alta cilindrada : uma Goldwing.
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Já em andamento iam apertando com destreza os capacetes de boa e reconhecida marca, complementando o reluzente vestuário preto de cabedal genuíno. Aqueles “meninos” detiveram repentinamente o motão antes de o transporem para o exterior da sua fortaleza relvada com piscina ao fundo. O que segurava o guiador e que aparentava ser o de mais idade apressou-se a retirar o capacete que havia enfiado um minuto antes e dirigiu-se verbal e agressivamente para aquele casal de mulatos que não arredavam pé.
Menino rico : - Oh escarumas do caraças, andam aqui no gamanço ? Vá, bazem daqui p’ra fora ! Ou querem levar um balázio na mona ? Fiz-me entender ?
Mulato : - Calma, meu ! Estás a precipitar-te ! Podemos ser “blacks” mas somos pessoas bué da fixes e estamos aqui numa boa ! Estávamos apenas a apreciar este espectáculo de vivenda, mano !
Menino rico : - Mano o diabo que te carregue !
Mulato : - Esta bacana aqui é minha irmã, meu ! É a Laurinha ! Só viemos aqui p’ra conhecer o palácio do senhor doutor juíz Junqueira. Esta mansão não é do doutor Junqueira ?
Menino rico : - Limpa a merda da tua bocarra quando pronunciares o nome do meu pai, ok ? Mas afinal que sabes tu acerca do meu cota ? Qual é a tua, meu ?
Entretanto, um indivíduo quarentão, impecavelmente “arreado” de fato e gravata e mala preta na mão esquerda entrou e sentou-se ao volante dum metalizado e potente Volvo. Ao aproximar-se do portão travou violentamente, saindo apressado da esplendorosa viatura e dirigindo-se para a frente da mota, como que tentando proteger as suas crias irrequietas e mal-educadas. Manifestava algum nervosismo e enquanto ia esticando os punhos da camisa e deixando vislumbrar os botões de prata artisticamente trabalhados foi-se aquietando, acabando por ficar estático...
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Senhor doutor : - Filhos, o que é que se passa aqui ? Qual o motivo da discussão ?
Menino rico : - Ora, velhote, são estes blacks das barracas que encontrámos aqui ao portão, sabe-se lá com que intenções !...
Senhor doutor : - Meninos, por favor não molestem essas pobres criaturas !
O senhor doutor , entretanto, deu alguns passos decididos em direcção ao portão, parou repentinamente, fixou o rapaz mulato, inclinou a cabeça para a esquerda, franziu o sobrolho e com a ponta dos dedos da mão direita coçou demoradamente a cabeça.
Senhor doutor : - Diz-me, rapaz, tu por acaso és angolano ? Caramba !... Ia jurar que...sim, a tua fisionomia não me é de todo estranha !
Menino rico : - Paizinho, não dês confiança a essa gente. Podem ser perigosos. Se calhar são alguém que já julgaste e condenaste...Cuidado ! O melhor é chamar a bófia. Não vês que os atrevidos não desandam ?
Senhor doutor : - Calma, calma, filho ! Deixa isto comigo !
O rapaz mulato tirou calmamente do bolso do blusão um maço de cigarros e um isqueiro ZIPPO e, numa atitude premeditada de demonstração de delicadeza, pediu, com um gesto, autorização para fumar, ao que o seu interlocutor acenou positivamente. O rapaz soprou o fumo demoradamente para o alto enquanto o juíz, petrificado, foi deslizando o olhar ora para o mulato ora para a sua irmã.
Mulato : - O senhor doutor juíz Junqueira era alferes...Lembra-se de Sanza Pombo ?...Recorda-se duma mulher negra muito linda chamada Laura?
Senhor doutor : - Tu, rapaz, és natural de Angola ? De Sanza Pombo ? Ai meu Deus, é isso...é isso...Mas afinal que sabes tu da Laura ? Que sabes tu a meu respeito ? Tu és parecido...pois...tão parecido ! Meu Deus, não me digas que...
Mulata : - Força, João, acaba lá com esta treta ! Vá lá, João Junqueira, diz a verdade ao senhor ! Que tens tu a perder ? Afinal, só o queres conhecer, não vens pedir népia ao ricalhaço !
Mulato : - Sim, foi-me dado o seu nome. A minha mãe Laura morreu de parto na sua segunda gestação : era uma menina. É esta aqui, a Laurinha ! Eu fui o primeiro...Não quero nada seu, não ! Tenho noção da realidade e nunca sonhei “sujar” a piscina desses aí que quer queiram quer não são meus irmãos. Só quis conhecer, ao fim de muitos anos, aquele que me disseram ter sido o grande amor de Laura. Eu...eu afinal sou apenas um filho escuro daquela maldita guerra, não é, doutor ?
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O rapaz mulato agarrou firmemente no braço da irmã, puxando-a para si, enquanto que com a outra mão apanhou do chão, onde haviam permanecido encostados ao muro, dois capacetes muito usados e impressionantemente riscados. Dirigiram-se os dois para uma motorizada sem guarda-lamas : uma DT 50 que havia ficado a uns metros de distância, inclinada para o passeio e sustentada nele apenas com o pousa-pés direito. Enquanto se foram afastando, o rapaz mulato, com a base do capacete apoiada na testa, virou-se de repente para trás, apontou o dedo indicador direito ao menino rico e num tom de voz elevado e embargado, disse-lhe : - Lembra-te sempre, “betinho”, preto não é ladrão, por vezes até pode mesmo ser irmão !!!
Aquela motorizada pegou de empurrão, o punho do acelerador foi bruscamente rodado até ao empanque, a “manete” da embraiagem largada repentinamente, dando origem a um brusco, barulhento e aterrador arranque, numa derrapagem em semi-círculo, seguido de um “cavalinho”, a caminho dum qualquer bairro de renda social algures nos subúrbios da capital, outrora latifúndio suburbano e hoje depósito disperso dos filhos incógnitos daquela prolongada guerra...
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Já lá vai o tempo do "Currículo"... Espiritualista (estudioso, mas não fanático). Voluntariado